Domingo, Dezembro 03, 2006

Igreja do Diabo - Conto de Machado de Assis

Oi, pessoal, de acordo com o combinado, dois sites onde vocês podem obter quase tudo do Machado (crônicas, poemas, contos, romances), inclusive o conto lido na aula passada, "Igreja do Diabo": www.dominiopublico.gov.br e www.bibvirt.futuro.usp.br

um abraço a todos,
Alvito

Quarta-feira, Novembro 22, 2006

A história de Joana - Texto de Rafael Cruz

A maior tristeza do mundo

Apesar do título remeter o filme de Guel Arraes, esse texto nada tem a ver com ele. Na verdade esse texto trata de um triste acontecimento que eu presenciei no trajeto Centro do Rio – Niterói. Ao esperar a minha vez para entrar no ônibus que seguiria para Niterói, vejo uma mulher negra, muito magra, com deficiência nas duas pernas e com uma touca ninja na cabeça sair pela entrada deste ônibus, pedindo desculpas pelo incômodo e outras coisas que não prestei atenção, pois ando sempre muito desligado. O que ocorreu foi que Joana havia pedido carona ao motorista, pois não tinha dinheiro para ir a Niterói. O motorista havia negado veementemente e mandado que ela descesse do ônibus. Quando eu estava subindo no ônibus, ouvi uma passageira, que estava logo a minha frente, discutir calmamente com o motorista, dizendo que iria pagar a passagem dela. Nisso ela chama essa mulher de touca (que eu irei dar o nome simbólico de Joana) para entrar no ônibus novamente. Sob protestos do motorista, Joana entra, emocionada e muito agradecida pela generosidade dessa passageira. Procura um lugar para sentar-se e encontra um lugar vago bem perto do trocador, na parte dianteira do ônibus. Ela volta-se para a passageira que lhe ajudou, agradece novamente e em seguida, olha para todos os passageiros do ônibus e inicia um discurso que eu jamais pensaria em ouvir, tanto pelo seu conteúdo quanto pela forma como ela o proferiu. Não me recordo exatamente das palavras dela, porém lembro das passagens mais importantes (leia-se marcantes para mim). De uma forma muito emotiva, ela disse que precisava pedir ajuda para conseguir o que comer e sustentar o seu filho, pois todo mundo nega trabalho a ela, julgando-a pela sua aparência (negra e mal vestida), sempre achando que ela é alguma vagabunda que anda com uma faca escondida na calça para atacar e roubar os outros. “Se eu parar de pedir ajuda, morro de fome. Meu filho morre de fome também [...] [...] É pessoal, as pessoas morrem de FOME. Meu filho depende de mim.” Nisso ela levantou sua blusa, mostrou o seio direito e o espremeu, espirrando um pouco de leite. “Estão vendo, sou uma mãe. Não estou mentindo”. Quando Joana ia prosseguir com o seu desabafo, o motorista, já irritado, interveio gritando “Olha só, ou você pára de falar merda e pára de perturbar os passageiros ou eu vou te tirar do ônibus. Como é que é???” Então, eu reparei que ele já havia parado o ônibus, bem no início da ponte Rio-Niterói. Prosseguiu: “Desse jeito eu perco o meu emprego. Vou te tirar do ônibus!” Joana respondeu resignada: “Desculpe amigo. Não queria incomodar. Pode prosseguir com a sua viagem que eu irei ficar em silêncio”. E não falou mais nada desde então. Quando o ônibus saiu da ponte, ela fez sinal. A passageira que pagou a passagem de Joana a chamou, falou alguma coisa em seu ouvido e deu-lhe um dinheiro. Joana, quase chorando, olhou nos olhos dela e a agradeceu do fundo da alma. O motorista parou no ponto e não abriu a porta. Joana, com uma voz embargada de emoções e com muita suavidade pediu: “Amigo, a porta por favor.” Ele abriu a porta e ela desceu, com a dificuldade que tem um pessoa com deficiência em ambas as pernas, e seguiu o seu rumo.

Esse episódio me chocou muito. Não que eu não tivesse conhecimento desses tipos de preconceitos impregnados no brasileiro, pois, graças as excelentes aulas do professor Marcos Alvito, tive a oportunidade de enxergar muitos contrastes sociais da nossa realidade. Mas é muito diferente você tomar conhecimento dessas situações dentro de uma sala de aula, bem longe do problema e presenciá-las ao vivo, no mundo real. Quando disse que jamais imaginava ouvir uma pessoa revelar essas coisas, eu esperava nunca poder comprovar a autenticidade dos textos e dos debates da disciplina Realidade sócio-econômica brasileira, ao qual eu participo como aluno do referido professor.

Enquanto Joana falava, fiquei pensando o que poderia fazer por ela. Observei que ela tinha uma voz maravilhosa, talvez não para ser cantora, mas para trabalhar em produção de filmes e documentários. Falava com muita clareza e senso de pausa, melhor do que muitos professores e outras pessoas que se consideram oradores. Olhava para todos enquanto falava, tentando ver se o que dizia estava sendo absorvido por todos. Então tive a idéia: Joana poderia fazer trabalhos de dublagem, narrando histórias ou como locutora de rádio. A própria Universidade Federal Fluminense (instituição ao qual estudo) poderia acolhê-la. Seria um bom trabalho para ela, mas... como conseguir isso? Não tenho poderes para arranjar emprego para alguém, ainda mais se tratando de uma instituição federal. Meu estado de choque me impediu de tentar uma outra alternativa para Joana. Não sabia o que fazer, e notava que eu não era o único. A reação era unânime. Pelo menos eu tinha um pouco de conhecimento do que estava ocorrendo naquele momento e sabia o que pensar dela e sobre o que ela falou. Talvez muitos ali estivessem do lado do motorista, só esperando que ele desse a ordem de expulsão da Joana para que pudessem ajudar a colocá-la para fora.

Notei que o discurso de Joana não tinha tom apelativo, para que sentíssemos pena dela, ou que estivesse revoltada com a pessoa que a maltratou. Joana não trazia em sua fala um tom agressivo, mas sim sufocado, de desabafo com a situação que lhe apresentava cotidianamente. Estava ali tentando mostrar para as pessoas o que ela passa, tentando abrir os olhos delas para essa não-conformidade social.

Quando Joana foi embora, fiquei pensando: Isso foi apenas um episódio que presenciei. O que acontece em seu dia-a-dia? Será que ela é agredida fisicamente? Quais os outros maus tratos ela é submetida? Com que frequência isso acontece com ela? Creio que diariamente...

Pois é... Penso nela, aí a multiplico por milhares, talvez milhões de outras pessoas que passam pela mesma situação em nosso país. Penso que agora achei algo em que posso ajudá-la. Pretendo publicar essa história em vários locais para que o maior número possível de pessoas enxerguem o quão horrível, nós seres humanos somos.

Rio de Janeiro, 30 de Outubro de 2006

Rafael Cruz

Sexta-feira, Novembro 10, 2006

Debatendo soluções para a violência - texto de abertura

Oi, pessoal, lembram-se do ótimo texto que abriu o seminário sobre soluções
para a violência ? A Stéphanie nos enviou o link. A surpresa: é de autoria de um tenente da PM... do Rio Grande do Sul.

http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=1600

Segunda-feira, Novembro 06, 2006

Teremos aula de Realidade 3a. e 5a.

Oi, pessoal,
Teremos aula normalmente amanhã e na 5a.: se não tivermos sala (o que é provável), voltaremos ao cenário da 1a. aula (o tablado) ou ficaremos à sombra de alguma árvore.

um abraço a tod@s,
Alvito

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

Crônica do Veríssimo sobre racismo

Oi, pessoal, a Karen Lessa nos enviou o link daquela ótima crônica do Veríssimo sobre racismo que ela leu em aula: http://portalliteral.terra.com.br/verissimo/vida_publica/vidapublica_racismo.shtml?vidapublica

um abraço,
Alvito

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Resenha de Rafael Cruz sobre o filme Boca de Lixo

Oi, pessoal, eis a resenha do filme Boca de Lixo, feita por Rafael S.Cruz:


UFF - Universidade Federal Fluminense
Disciplina: Realidade Sócio-Econômica do Brasil
Professor: Marcos Alvito
Aluno: Rafael S. Cruz


Resenha do filme: Boca de Lixo

Ficha Técnica
Direção: Eduardo Coutinho Data: 1992 Duração: 50 minutos


O objeto do filme de Coutinho é mostrar a vida de pessoas que utilizam o lixão como meio de vida, na região de São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro. Na obra, o diretor faz uso de toda a sua técnica para mostrar como vivem essas pessoas, contar-nos suas histórias, anseios e pensamentos.

Em diversas entrevistas que a equipe de Coutinho fez aos moradores do lixão, era repetitiva a informação de que eles preferiam viver ali a roubar e cometer crimes nas cidades, expressando, talvez, a preocupação da equipe de passar uma imagem mais humana dessas pessoas aos telespectadores. Esses moradores do lixão formavam uma espécie de comunidade, uma sociedade marginalizada no Brasil. Coutinho dá uma vivacidade aos personagens, desvenda uma identidade para cada morador, reforçando a idéia de que eles são pessoas como nós e que estão entre nós. Não são de nenhuma espécie diferente da nossa, mas a sociedade os coloca em uma posição marginalizada e os desmerece pelo fato de não fazerem parte do “sistema formal”.

Apesar dos moradores do lixão não terem acesso à educação, à saúde básica e a outras modalidades úteis a qualquer cidadão, existe uma coisa que chega a eles: A mídia. A mídia e toda sua ideologia consumista, braço essencial do capitalismo, que pode ser vista em duas cenas do filme: uma mostra um homem lendo meia folha de um jornal e noutra, em seqüência, mostra um outro rapaz folheando uma revista. O fato das crianças chamarem o barbudo de “Papai Noel” e da menina que sonha ser cantora sertaneja já ilustram a idéia da influência das apelações consumistas nas vidas destas pessoas, mostrando que eles não estão isolados do mundo e nem da sociedade, como muitos pensam.

Coutinho utiliza-se da técnica, que também está presente em Edifício Master, outro filme seu, de deixar as pessoas à vontade e convencê-las a falarem de suas vidas. Apesar da resistência dos moradores no início do filme, como o ato de esconder a cara, de mandar que desligassem a câmera e que saíssem dali, que ali nada tinha para filmar, que eles não eram bandidos etc, essas pessoas falaram de suas histórias pessoais, alguns de forma mais tímida, outros nem tanto. Nestas histórias a equipe foi descobrindo que uma menina desejava ser cantora, que muitas das pessoas entrevistadas eram naturais de outros estados, a mulher dos 7 filhos e a sua história com o marido, a mulher do ferimento no pé etc.

Outro fato importante a ser levantado era a família de 7 filhos. Na entrevista que Coutinho realizou com eles, a mãe revelou o desejo de ter ainda mais filhos e o pai confirmou. Indagados sobre o motivo de tantos filhos, o casal respondeu que a cada briga que tinham, iam para a cama. À medida que tivessem mais filhos, o número de brigas diminuía e, conseqüentemente, número de filhos gerados. Estatisticamente, quando menor a instrução de uma família, maior a probabilidade de terem muitos filhos. E esse estudo explica a alta taxa de natalidade em famílias de baixa renda, mostrado de forma mais “informal” no filme Boca de Lixo.

Portanto, o filme Boca de Lixo é de grande relevância social, por trazer a tona tantos temas da nossa sociedade, traduzidos em um único cenário. Eduardo Coutinho e sua equipe desenvolveram brilhantemente um filme de várias facetas sociais, abrindo canal para novas reflexões sobre a nossa sociedade.

Entrevista Paul SINGER

Oi, pessoal, nosso colega Rafael Cruz enviou-nos uma entrevista com Paul SINGER (Leitura 2):

Entrevista: Paul Singer

Paul Singer é um dos maiores estudiosos da Economia Solidaria no Brasil. Austríaco, de Viena, mora no Brasil desde 1940. É formado em Economia e Administração, doutor em Sociologia, além de outras formações. Possui 23 obras publicadas e atualmente é secretário nacional de Economia Popular Solidária, no Ministério de Trabalho e Emprego do governo brasileiro. Nesta entrevista ao jornal Folha do Amapá, dada em junho 2003, ele conceitua a Economia Solidária e fala de seu avanço no Brasil.
Como o senhor conceitua a economia solidária?
É uma economia formada por empresas onde os trabalhadores são capitalistas e os capitalistas são os trabalhadores. Não há separação entre a propriedade e o trabalho. Todos que trabalham na empresa são donos da empresa por igual. Cada um tem a mesma parte do capital e, portanto, os mesmos direitos de decisão. Pratica-se a autogestão, que é a administração da empresa por todos que trabalham nela democraticamente. Nós não sabemos exatamente onde a economia solidária começou, mas na Europa, com certeza, no fim do século 18, com a primeira revolução industrial. Na Inglaterra ela tomou forma mais nítida a partir do século 19. Houve muitas tentativas, centenas de cooperativas formadas por trabalhadores desempregados, que tinham perdido seu trabalho em função da revolução industrial. Mas a partir da segunda metade do século 19 esse tipo de economia tomou a forma de cooperativas, se difundiu no mundo inteiro, e hoje a Aliança Cooperativa Internacional tem como associados, através das cooperativas que são parte dela, 600 milhões de pessoas no mundo inteiro. Isso é mais ou menos 10% da população mundial.
O senhor vê a economia solidária como uma reação ao capitalismo. O que ela pretende?
No fundo, é criar um outro tipo de economia e sobre ela um outro tipo de sociedade, onde não há ricos e pobres, e não há quem manda e quem obedece. A estrutura capitalista das empresas é extremamente autocrática. Todo poder está na propriedade ou em quem representa a propriedade, e os outros trabalhadores obedecem a ordens. Essa hierarquia é tão rígida hoje quanto foi cem anos atrás. Nada mudou, essencialmente. A proposta da economia solidária é exatamente eliminar essa divisão de classes e, a partir daí, criar uma economia não capitalista, que todos participem em atividades sociais, ou seja, todos são associados por igual.
Existem mais economias solidárias no Brasil do que nos outros países?
Há um surto extremamente forte de economia solidária no Brasil, desde os anos 90, e está se acelerando hoje, inclusive tem ganhado apoio político e social. Em 1999, a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica teve como tema “Por que Desemprego?”, mostrando que o desemprego não é uma coisa inevitável e colocando a economia solidária como uma das mais importantes alternativas ao desemprego. Então eu não tenho dúvida de que hoje o Brasil é palco do maior surto de economia solidária, que também está se expandindo fortemente em alguns outros países da América Latina e aparentemente também na Índia e possivelmente nos países da África. A verdade é que a informação que nós temos é muito precária, tanto em ralação ao nosso país quanto aos outros países.
A economia solidária pode ser considerada uma alavanca para o desenvolvimento local?
Eu acho que certamente no Amapá é, se tomar em consideração que as cooperativas são formadas tanto por castanheiros como por pescadores e outros. A economia solidária é uma forma eficaz de dar força a pequenos produtores, que é a característica da economia extrativista na Amazônia inteira. Através das cooperativas os pequenos extrativistas se unem, e sem que ninguém mande em ninguém eles conseguem industrializar eventualmente seus produtos, agregar mais valor e dar mais competitividade.
O que é ou quem é que fomenta a economia solidária?
Há uma série de entidades hoje especializadas, além da Cáritas, que foi, ao meu ver, a entidade que deu mais impulso, ainda nos anos 80, quando nós vivemos o início desse novo auge da economia solidária no Brasil. Existe a Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas Autogeridas e de Participação Acionária (Anteag). Estas empresas surgem de empresas capitalistas que estão quebrando, já quebraram, e conseguem que essas empresas sejam assumidas por seus trabalhadores sob forma de cooperativas ou outras formas semelhantes, e na maneira da economia solidária reabilitam essas empresas. Hoje existem mais de cem empresas dessa natureza associadas à Anteag. O MST é outra entidade que cria economia solidária nos assentamentos da reforma agrária, a Contag também faz isso, os sindicatos rurais da CUT, a Agência de Desenvolvimento Solidário da CUT, que tem uma atividade forte na criação de cooperativas de crédito, enfim, sem esquecer as incubadoras universitárias de cooperativas populares, que já se fazem presentes em cerca de vinte universidades brasileiras, de Manaus até Pelotas.
É possível fazer um paralelo entre economia solidária e economia sustentável?
Eu acho que existe uma forte afinidade entre esses conceitos, mas eles não são idênticos. A economia sustentável, pelo que eu entendo, refere-se à forma de as pessoas, na atividade econômica, tratarem os recursos naturais e o meio ambiente, uma forma inteligente de preservar os recursos naturais e, sobretudo, a qualidade do ambiente, o que é fundamental para que o desenvolvimento não cesse amanhã por destruição das suas bases físicas e da idéia de sustentabilidade. A economia solidária é uma proposta em relação a como se organiza socialmente a atividade produtiva, uma forma igualitária e democrática. As duas coisas vão muito bem juntas, aqui no Amapá, mas eu acho que não vale a pena confundi-las. São propostas afins, porém não idênticas.
21/09/2003
Retirado de: www.comerciosolidariobrasil.com.br

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

PROGRAMA DO CURSO JÁ COM ALTERAÇÕES

Oi, pessoal, conforme nossa conversa na última aula, já fiz as alterações no cronograma do curso. Aproveito para publicar o programa e o cronograma já com as novas datas. Lá vai:


UFF/CEG/ICHF/ Depto. de História Professor: Marcos Alvito
Disciplina: Realidade Sócio-Econômica Política Brasileira
Código: GHT 04119 Carga Horária: 60h / Semestrais
Período: II/2006 Turma: Horário: 3ªf. 10/12 e 5ªf. 10/12

PASTA 243 – BLOCO O - http://brasil200602.blogspot.com

Seis (+ três) temas de realidade brasileira

Objetivo: Encorajar uma visão crítica da realidade brasileira através da análise e debate de seis temas fundamentais: a globalização e o Brasil, cidadania e participação política, a questão racial, a violência nos centros urbanos, música e identidade nacional e as religiões brasileiras. Além destes seis temas, mais três temas serão escolhidos pela turma.

Estratégias didáticas: Buscaremos a participação ativa dos alunos em diversas atividades: leitura e debate coordenado de textos, vídeo-debates, pesquisas complementares – aí incluídas notícias de jornal relacionadas ao tema estudado, bem como sites da Internet, músicas etc. Para tal, a turma será dividida em grupos, os quais se revezarão na condução das diversas atividades.

Unidades:

Unidade I: O Brasil e a globalização (a questão do trabalho)

Unidade II: Cidadania e participação política

Unidade III: A questão racial

Unidade IV: A violência nos centros urbanos

Unidade V: Música e identidade nacional (o samba, o funk e o hip-hop)

Unidade VI: As religiões brasileiras

Unidades VII-IX: temas a serem escolhidos pela turma

Avaliação: (Procedimentos de avaliação) Além da participação nos grupos, cada aluno – individualmente, deverá fazer, OBRIGATORIAMENTE, pelo menos duas resenhas de textos e uma sobre os vídeos. A NÃO REALIZAÇÃO DE UM DESTES TRABALHOS IMPLICARÁ NA REPROVAÇÃO AUTOMÁTICA DO ALUNO. A nota final, entretanto, será atribuída através de uma avaliação, por parte do professor, do desempenho do aluno em termos de frequência, participação nos debates e qualidade dos trabalhos apresentados (orais e escritos). Para alguns exemplos de resenhas, ver www.opandeiro.net , site onde poderão ser encontrados alguns materiais do curso. Idem para o blog: http://brasil200602.blogspot.com

Observações:
i. As resenhas críticas, digitadas ou datilografadas, terão, no máximo, duas páginas, devendo conter: dois parágrafo resumindo os objetivos e a idéia central do texto e, sobretudo, três a quatro parágrafos de comentário crítico.
ii. Quando da impossibilidade de comparecimento à aula no dia de entrega da resenha, enviá-la para o seguinte endereço:
Marcos Alvito
R. Barão da Torre, 36/ apto. 302
Ipanema – RJ – 22.411-000
Leituras (data de entrega das resenhas):
19 de setembro (globalização): SANTOS,Milton. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: São Paulo: Record, 2001. 6.ed. pp. 11-57.

21 de setembro (globalização e trabalho no Brasil): SINGER,Paul. “Globalização, precarização do trabalho e exclusão social” In: Globalização e desemprego: diagnóstico e alternativas. São Paulo: Contexto, 2000. 4.ed. pp. 7-33.

28 de setembro (cidadania e participação política): CARVALHO,J.M. Cidadania no Brasil: longo caminho. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira,2001. Capítulo III: “Passo atrás, passo adiante (1964-1985)” e Capítulo IV: “A cidadania após a redemocratização” e Conclusão: “A cidadania na encruzilhada”. pp. 157-229.

5 de outubro (a questão racial): SCHWARCZ,Lilia. “A questão racial no Brasil”. In: [1996] SCHWARCZ,Lilia & REIS, Letícia Vidor de Souza (Orgs.) Negras imagens: ensaios sobre cultura e escravidão no Brasil. São Paulo: EDUSP. pp. 153-177.

26 de outubro (a violência nos centros urbanos): LEEDS,Elizabeth "Cocaína e poderes paralelos na periferia urbana brasileira", In: ALVITO,Marcos e ZALUAR,Alba (Orgs.) Um século de favela. Rio de Janeiro: Editora da FGV,1998.pp. 233-276.

9 de novembro (música e identidade nacional - samba): SANTOS,Myriam Sepúlveda. “Mangueira e Império: a carnavalização do poder pelas escolas de samba”, In: ALVITO,Marcos e ZALUAR,Alba (Orgs.)Um século de favela.Rio de Janeiro: Editora da FGV,1998. pp. 115-144.

23 de novembro (música e identidade nacional - funk): VIANNA,Hermano. “O funk como símbolo da violência carioca” In: VELHO,Gilberto e ALVITO,Marcos. Cidadania e Violência. Rio de Janeiro: Editora da FGV,1996. pp.178-187 e 344-367 (debate)

5 de dezembro (as religiões brasileiras): ALVITO,Marcos. As cores de Acari. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2001. Capítulo 5: “Exércitos de anjos”. pp. 165-218 (também disponível em www.opandeiro.net)
Observação: Os textos encontram-se na pasta 243 do Bloco N.

Vídeos (a resenha deverá ser entregue na aula seguinte)

14 de setembro: Boca de Lixo, de Eduardo Coutinho

19 de setembro (14h) – Segunda-feiras ao sol, de Fernando Leon de Aranoa

3 de outubro (14h): A negação do Brasil, de Joel Zito Araújo

24 de outubro: Notícias de uma guerra particular, de João Moreira Salles

11 de novembro: Um preto velho chamado Catoni, de Valter Filé

21 de novembro: Funk’n’Rio, de Sérgio Goldemberg

30 de novembro: Santo Forte, de Eduardo Coutinho
2006- 02 - Realidade Brasileira - Cronograma tb Seminários

01
05/09
Apresentação do Curso


02
12/09
Vídeo-Debate 1 – Boca de Lixo – Eduardo Coutinho


03
14/09
Deb. Coord. Leitura 1: SANTOS
T1: GLOBALIZAÇÃO

04
19/09
Vídeo-Debate 2 – Segunda-feira ao Sol – Fernando Leon de Aranoa
T1: GLOBALIZAÇÃO

05
21/09
Deb. Coord. Leitura 2: SINGER
T1: GLOBALIZAÇÃO

06
26/09
A questão do trabalho no Brasil atual vista pela Literatura
T1: GLOBALIZAÇÃO

07
28/09
DEBATE COM CANDIDATOS
T2: CIDADANIA

08
03/10
Deb. Coord. Leitura 2: CARVALHO
T2: CIDADANIA

09
03/10 – 14 horas
Víd-Deb. 3: A negação do Brasil
T3: QUESTÃO RACIAL

10
05/10
Tr.1:D.C. Leitura 3: SCHWARCZ
T3: QUESTÃO RACIAL

11
10/10
A questão racial no Brasil vista pela Literatura
T3: QUESTÃO RACIAL

12
17/10
Tr.2: O negro na música

T3: QUESTÃO RACIAL

13
19/10
Tr.3: Ação Afirmativa e cotas
T3: QUESTÃO RACIAL

14
24/10
Víd-Deb. 4: Notícias de uma guerra particular
T4: VIOLÊNCIA URBANA

15
26/10
Tr.4: Deb. Coord. Leitura 4: LEEDS
T4: VIOLÊNCIA URBANA

16
31/10
Tr.5: Sem. A violência na música

T4: VIOLÊNCIA URBANA

17
07/11
Tr.6: Sem. Debatendo projetos e soluções
T4: VIOLÊNCIA URBANA

18
09/11
Tr.7: Deb. Coord. Leitura 5: SANTOS
T5: MÚSICA & IDENTIDADE NACIONAL

19
14/11
Víd-Deb. 5: Um preto velho chamado Catoni
T5: MÚSICA & IDENTIDADE NACIONAL

20
16/11
Tr.8: Sem. Samba e vida cotidiana das classes trabalhadoras
T5: MÚSICA & IDENTIDADE NACIONAL

21
21/11
Víd-Deb. 6: Funk’n’Rio
T5: MÚSICA & IDENTIDADE NACIONAL

22
23/11
Tr.9: Deb. Coord. Leitura 6: VIANNA
T5: MÚSICA & IDENTIDADE NACIONAL

23
28/11
Tr.10: Sem. Hip-Hop
T5: MÚSICA & IDENTIDADE NACIONAL

24
30/11
Víd-Deb. 7: Santo Forte
T6: RELIGIÕES BRASILEIRAS

25
05/12
Tr.11: Deb.Coord. Leitura 7: ALVITO
T6: RELIGIÕES BRASILEIRAS

26
07/12
Tr.12: TEMA 7:
T7:

27
12/12
Tr.13: TEMA 8:
T8:

28
14/12
Tr.14: TEMA 9:
T9:

29
19/12
AVALIAÇÃO DO CURSO


30

Segunda-feira, Setembro 18, 2006

O Brasil de biquíni no domingo

Não sei quem foi que disse que a estatística é que nem o biquíni: mostra muita coisa mas esconde o essencial. De qualquer forma, alguns números são importantes para pensar de forma crítica a realidade brasileira contemporânea. Como os dados da última PNAD-IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2005:

1. O rendimento do trabalhador no governo Lula é de R$ 781,13 contra R$ 898 do governo FHC. Quem diria...
2. Há mais domicílios com telefone (71,6%) do que com esgoto sanitário (69,7%), o que demonstra a expansão da telefonia celular, por um lado, e a incompetência governamental para proporcionar um mínimo de infra-estrutura, embora os impostos hoje "comam" quase 38% do PIB! Os domicílios com água encanada são apenas 82,3% e com coleta de lixo somente 85,8.
3. Cerca de 21% dos brasileiros acessaram a Internet ao menos uma vez em 2005; existem computadores em 18,5% dos lares. Em termos de faixas etárias, os mais ligados na rede têm entre 15 e 17 anos (33,9% acessaram) e os menos ligados têm mais de 60 anos (3,3% acessaram). Também há desigualdades de classe, com maior concentração de computadores entre os mais ricos e diferenças regionais: apenas 4,1% dos domicílios têm computador no Maranhão, contra 28,9% em S.Paulo.
4. Há 2,5 milhões de crianças e adolescentes sendo explorados em trabalho ilegal. Pior do que isso: houve uma tendência de aumento entre 2004-2005, revertendo uma diminuição continuada nos últimos 14 anos. Vergonha total.
5. A desigualdade brasileira ainda é uma das maiores do mundo, acima da Índia, da China, do México. Mas ela vem caindo, mesmo que lentamente.
6. Tem aumentado a participação feminina no mercado de trabalho, que passou de 45,6% (do total das mulheres) em 2004 para 46,4% em 2005.
7. Ainda temos 15 milhões de analfabetos (10,2%, entre os maiores de 10 anos) e o ritmo de diminuição do analfabetismo diminuiu a partir do governo Lula. Se considerarmos o analfabetismo funcional (i.e. pessoas com menos de quatro anos de estudo), teremos um número bem mais alto: 38 milhões de pessoas. Há também sérias desigualdades regionais: a analfabetismo no Nordeste chega aos 20% contra 5,4% no Sul.

Fonte: O Estado de São Paulo, 16/9/2006, "Retratos do Brasil", de Irany Tereza e Karine Rodrigues.

Sobre TV Digital

Oi, pessoal, o André fez um comentário acerca da TV digital e eu encontrei esse interessante artigo criticando a escolha do governo. Dêem uma olhada:


Folha de São Paulo

São Paulo, quarta-feira, 13 de setembro de 2006

TV digital na contramão do interesse público

DIOGO MOYSES e GUSTAVO GINDRE

Seria a chance de incentivar o surgimento de novas emissoras. Mas o governo entregou o novo espaço aos atuais radiodifusores O DECRETO presidencial nº 5.820/06, que estabeleceu o padrão japonês para a televisão digital brasileira e presenteou radiodifusores com mais uma fatia do espectro de freqüências, marcou a consolidação da aliança entre o governo Lula e o principal grupo de comunicação do país, bem como o rompimento definitivo com os compromissos históricos que o elegeram. A escolha de um ex-funcionário da Rede Globo -e ele próprio um radiodifusor- para ocupar o Ministério das Comunicações apenas explicita tal opção, baseada no pragmatismo eleitoral em detrimento do interesse público. Forjado na conveniência mútua, o decreto mantém a sina das políticas de comunicação: primeiro, com militares, oligarquias e financistas; agora, sob as barbas de quem um dia ergueu a bandeira da democracia. Para saciar o apetite dos radiodifusores, o governo, simultaneamente, afrontou a Constituição Federal, infringiu leis ordinárias e contrariou outros atos presidenciais, como o decreto nº 4.901/03, que instituiu o SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital) e previa o uso da TV para a democratização da informação, o desenvolvimento de ciência e tecnologia nacionais, a inclusão social e a participação da sociedade civil por meio de um comitê consultivo. Em ação recente movida na Justiça, o Ministério Público Federal apontou uma série de ilegalidades. Não há, até hoje, garantia de incorporação das pesquisas nacionais -ao contrário, avanços como a modulação "Sorcer", da PUC-RS, foram descartados sem justificativa. A concentração do espectro da TV (um bem público e finito) nas mãos do atual oligopólio privado tende a aumentar. O comitê consultivo deixou de ser convocado em 2005, no mandato do atual ministro -marcado pela total falta de transparência e por relações promíscuas com as emissoras-, sem concluir seus trabalhos. Nem sequer os documentos produzidos no interior do SBTVD foram divulgados oficialmente pelo governo. A afronta à lei não pára aí. Uma das mudanças técnicas mais profundas na transição da tecnologia analógica para a digital é a capacidade de compressão dos sinais. Isso permite que, no mesmo espaço do espectro por onde hoje trafega uma única programação (o que hoje chamamos de "canal"), possam ser transmitidos simultaneamente até oito programações. Essa seria a chance de desconcentrar o mercado e incentivar o surgimento de novas emissoras (públicas, privadas, estatais), permitindo que a diversidade de nossa cultura enfim habitasse a tela da TV. O governo, porém, optou por entregar todo o novo espaço aos atuais radiodifusores. Em vez de novos produtores de conteúdo, veremos a multiplicação de cultos religiosos e vendas de tapetes feitos pelas mesmas famílias que controlam a TV brasileira. E, para entregar um novo canal de TV para as atuais emissoras sem a aprovação do Congresso (determinação da Constituição), cometeu dupla ilegalidade: apoiou-se na farsa jurídica da "consignação" (legalmente aceitável apenas se o novo canal fosse um simples "espelho" da programação analógica) e, simultaneamente, violou a lei nº 4.117/62, que impede a transmissão de duas ou mais programações pelo mesmo concessionário. Outra questão importante é a da interatividade. Ainda que o decreto nº 5.820/06 a apresente como uma das características da TV digital, a interatividade não pode ser utilizada com a atual legislação (de 1962), que define a radiodifusão como um serviço a ser "recebido" -portanto, unidirecional. Mas, mesmo que se torne juridicamente "possível" com nova legislação, a oferta dos recursos digitais de interesse social não está nos planos do governo, que afirma ser a interatividade um serviço para o "mercado" vender àqueles que podem pagar, criando uma nova categoria de excluídos: a dos que não podem pagar pelo canal de retorno, necessário para tornar a comunicação bidirecional. (Não custa lembrar que, com cerca de R$ 350 milhões -menos de 10% dos recursos inutilizados do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações-, seria possível montar, segundo dados da Fundação CPqD, uma rede nacional de acesso banda larga sem fio que servisse como canal de retorno, permitindo à população de baixa renda acesso a serviços de educação, telemedicina, governo eletrônico, e-mail e serviços bancários, por exemplo.) Em resumo, o decreto presidencial, além de ser um erro político, que desperdiça a chance histórica de democratizar as comunicações e incluir socialmente milhões de brasileiros, é flagrantemente ilegal, e, por isso, deve ser questionado na Justiça. Ao governo, resta defender o indefensável: o aprofundamento da concentração dos meios de comunicação e a manutenção da exclusão social, além de uma tese jurídica sem fundamento.

DIOGO MOYSES , 27, radialista, e GUSTAVO GINDRE , 37, jornalista, são coordenadores do Intervozes Coletivo Brasil de Comunicação Social.

Sábado, Setembro 16, 2006

Segundas-feiras ao sol - 3a. feira - 14h - sala 516 - Bloco O

Para fechar o tema 1: Globalização e (des) emprego, exibiremos o filme Segundas-feiras ao sol (2002), de Fernando León de Aranoa. Com muita sensibilidade e inteligência, este filme consegue examinar as consequências humanas (como diria Zygmunt Baumann) do desemprego em uma cidade portuária da Espanha. Seria interessante relacioná-lo às notícias sobre a fábrica da Volks no ABC paulista publicadas neste blog (ver infra). E além disso é um filmaço, com uma interpretação antológica de Javier Bardem.

Trabalhadores aprovam acordo de demissão de 3600 na Volks

Folha de São Paulo

São Paulo, sexta-feira, 15 de setembro de 2006

Trabalhador da VW aprova acordo no ABC

Em assembléia tensa e dividida, funcionários aceitam plano de demissão voluntária, que prevê corte de 3.600 empregos

Para presidente da Volks, no Brasil, decisão assegura "futuro da fábrica'; grupo ameaçou demitir 6.000 e fechar unidade do ABC

CLAUDIA ROLLIDA REPORTAGEM LOCAL

Em uma assembléia tumultuada e dividida, os trabalhadores da Volkswagen de São Bernardo do Campo aprovaram ontem acordo negociado com a montadora para demitir 3.600 trabalhadores da fábrica por meio de um programa de demissão voluntária.Mais antiga fábrica do grupo VW no Brasil, a unidade do ABC emprega 12.400 funcionários e era alvo de um impasse que começou há quatro meses, quando a montadora anunciou seu plano de reestruturação para cortar custos e atrair investimentos da matriz alemã.O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (CUT) informou que 70% dos 12 mil funcionários presentes à assembléia aprovaram o acordo. Mas, como os trabalhadores têm de erguer os braços para votar, a impressão era de que a rejeição foi maior.Para integrantes da oposição, filiados ao Conlutas (central sindical ligada ao PSTU), 55% aprovaram a proposta.Com o resultado de ontem, o desligamento dos funcionários será feito em 11 etapas a partir deste mês até dezembro de 2008. A adesão ao PDV garante o pagamento de 0,3 a 1,4 salário extra por ano trabalhado, conforme a data de adesão ao plano, além das verbas rescisórias.O benefício será maior para os primeiros inscritos. Na primeira fase, a VW disse esperar a inscrição de 1.300 trabalhadores e impôs um limite de 1.500 adesões -só eles receberão 1,4 salário por ano trabalhado.Nas demais etapas, o incentivo é menor. Essa era uma das principais críticas dos empregados ao pacote durante e após a assembléia. "Por que não pagam 1,4 salário a mais para todos?", questionava Marcelo Godoy, 35, preparador de máquinas, há 13 anos na fábrica.Na avaliação dos sindicalistas, a procura pelo pacote deve ser maior do que o limite estabelecido pela fábrica. "Não sei dizer quantos vão aderir. Mas, em 2003, a meta era de 500 adesões e 1.900 se inscreveram", afirmou José Lopez Feijóo, presidente do sindicato.Em contrapartida à aprovação do acordo (necessário para reduzir em 15% os custos com mão-de-obra), a montadora se compromete a produzir dois novos veículos no ABC e põe fim à ameaça de fechamento da fábrica feita em agosto.A empresa chegou a distribuir 1.800 cartas de demissão avisando que os operários seriam desligados a partir de 21 de novembro, quando termina acordo de estabilidade na fábrica. Com a proposta aprovada, as cartas estão canceladas."Ao aprovar o acordo, os empregados da Anchieta sinalizaram, com clareza, que querem assegurar o futuro da fábrica", disse o presidente da VW do Brasil, Hans-Christian Maergner, em comunicado. "Com isso, a Volkswagen do Brasil entra em nova fase, em que a retomada de sua rentabilidade por meio de operações mais competitivas se torna realidade."Cerca de R$ 1 bilhão será investido em dois novos veículos (um carro popular e uma picape), segundo o sindicato. Sobre a pressão do governo Lula na crise da Volks, Feijóo afirmou que "foi correta".Clima tensoSob críticas e vaias de um grupo de trabalhadores, o presidente do sindicato dizia que "esse foi o melhor acordo possível de se conseguir na mesa de negociação". Enquanto isso, cartazes eram mostrados com os dizeres: "Feijóo mentiu quando disse que estava com raiva da VW e que não aceitaria demissão em seu currículo".Carlos Alberto Grana, presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, disse que críticas eram isoladas: de trabalhadores afastados desde 2003 no Centro de Formação e Estudos, criado para absorver "excedentes". Parte deles está de licença e parte estuda.Para esse grupo de 500 funcionários, a VW oferece incentivos menores -0,4 a 0,6 salário por ano de serviço, conforme a data de adesão. "O sindicato já prepara uma ação coletiva para pedir a equiparação do benefício com os demais trabalhadores", afirmou Feijóo.No final da assembléia, o sindicalista deixou o pátio da Volks escoltado por um grupo. Ao ser questionado se eram seguranças, ele disse que eram "militantes e trabalhadores"."Foi uma vitória da fábrica e uma derrota para os trabalhadores", disse Rogério Romancini, ligado à oposição.

"Rifaram nossos direitos", dizem metalúrgicos da empresa sobre proposta

DA REPORTAGEM LOCAL

Com opiniões divididas em relação ao pacote aprovado ontem em São Bernardo do Campo, funcionários da Volks criticaram o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e disseram que seus direitos trabalhistas foram "rifados" e que não irão aderir ao plano de demissões voluntárias."Votei contra porque não é negociando direitos do trabalhador que se resolve a reestruturação de uma empresa. Já vimos esse filme em 2001 e 2003 [quando a VW negociou planos de demissão para enxugar o quadro pessoal]", disse o mecânico Ismael Barbosa da Silva, 44, há 22 anos na Volks."A empresa comprou a estabilidade do trabalhador pagando um preço baixo: 1,4 de salário por ano trabalhado. E o sindicato aceitou."Para Silva, a crise na VW é resultado de problemas administrativos e decisões equivocadas do grupo. "Nem governo nem trabalhador têm culpa se a empresa não demitiu na hora certa e lançou produtos que não deram certo. Outras empresas do setor vão bem. Não se pode dizer que a crise aqui é resultado da política econômica do governo Lula.""Nossos benefícios sociais foram rifados. Sou contra o pacote", diz Antônio Leôncio Caetano, 45, ao se referir ao aumento de 73 para 104 meses do tempo que o trabalhador levará para chegar ao salário máximo de sua função e ao reajuste do plano médico dos trabalhadores (de 1% para 2% do salário)."Por que fomos discriminados?", questionava P.V.,51, funcionário que está no centro de formação. (CR)

45,5% dos desempregados são jovens

Folha de São Paulo

São Paulo, quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Desemprego entre os jovens atinge 32%

Taxa entre 16 e 24 anos é muito maior que a dos acima de 25 anos, de 13%, segundo pesquisa do Dieese com dados de 2005

Pesquisa revela ainda dificuldade para jovem conciliar estudo com o trabalho por causa de carga horária pesada

JOÃO SANDRINIDA FOLHA ONLINE

Pesquisa divulgada pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) mostra que 45,5% do total de desempregados brasileiros têm entre 16 e 24 anos. Ao mesmo tempo, os jovens representam apenas 25% da população economicamente ativa.O levantamento, feito com números de 2005, identificou 3,241 milhões de desempregados no Distrito Federal e nas regiões metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador -1,473 milhão tinha até 24 anos.Para o Dieese, faltam oportunidades para jovens no mercado de trabalho, que tem uma taxa de desemprego de quase o triplo da dos demais. Segundo os números do Dieese, o índice de desemprego das pessoas entre 16 e 24 anos alcança 31,82%, mas cai para 12,76% entre quem tem 25 anos ou mais, nos dados de 2005.A situação é bem parecida em São Paulo. Enquanto a taxa de desemprego é de 11,9% para maiores de 25 anos, alcança 29,89% entre 16 e 24 anos.Patricia Lino Costa, economista do Dieese, disse que somente com taxas de crescimento econômico que permitam a redução do índice geral de desemprego o jovem deixará de ter a concorrência de pessoas mais experientes para obter vagas no mercado de trabalho.Ela lembrou que em 2004 os jovens eram 46,4% dos desempregados nessas seis regiões. Mas Costa atribuiu a redução, de quase um ponto, ao desalento de uma parcela dos jovens, que deixou de procurar emprego porque percebeu a importância de continuar a estudar.A pesquisa mostra ainda que a maioria dos jovens ocupados não consegue conciliar a formação escolar e a profissional. Em São Paulo, onde o problema é mais grave, 70,1% dos jovens ocupados só trabalham e só 29,9% estudam e trabalham.A situação é pior entre as famílias de baixa renda. Em São Paulo, entre a parcela de 25% das famílias com maior renda familiar, 40,8% dos jovens estudam e trabalham e 59,2% só trabalham. Já entre 25% das famílias com menor renda, a proporção cai para 23,5% e 76,5%."O estudo mostra a fragilidade dos jovens, principalmente de baixa renda. São necessárias políticas públicas que permitam que o jovem continue a estudar e aumente sua escolaridade antes de ingressar no mercado de trabalho", afirmou.O estudo mostra que jornadas pesadas de trabalho contribuem para afastar o jovem da escola. Nas seis regiões, a maior jornada semanal média foi encontrada em Recife, onde os jovens trabalham em média 44 horas semanais -o limite legal.Mesmo em Belo Horizonte, onde foi encontrada a menor jornada média, de 39 horas, ela ainda foi considerada pelo Dieese difícil de ser compatibilizada com os estudos.Os rendimentos dos jovens mostram a importância do aumento da escolaridade. Segundo a pesquisa, o menor salário médio foi encontrado em Recife (R$ 318) e, o maior, no Distrito Federal (R$ 573). Já em São Paulo a média ficou em R$ 560 por mês no ano passado.

Terça-feira, Setembro 12, 2006

BOCA DE LIXO


Diretor: Eduardo Coutinho
Música: Tim Rescala
Produção: CECIP (Centro de Criação de Imagem Popular) http://www.cecip.com.br/
Duração: 50 minutos
Ano: 1992

Onde obter o vídeo: Centro de Criação de Imagem PopularLargo de São Francisco de Paula, 34/4o andar20051-070 - Rio de Janeiro/RJTel (21) 2509 3812 - Fax (21) 2252 8604





Recomendação: Consuelo Lins escreveu um ótimo livro sobre a obra de Eduardo Coutinho: O documentário de Eduardo Coutinho - Televisão, cinema e video. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

Sexta-feira, Setembro 08, 2006

Nossa sala é a 403 do Bloco N

Oi, pessoal, a partir da próxima 3a. feira, 12 de setembro, teremos aula na sala 403 do Bloco N. Aproveito para lembrar que passaremos o vídeo Boca de Lixo de Eduardo Coutinho.
Na aula de 5a. feira debateremos a Leitura 1, o texto de Milton Santos.

um abraço a tod@s,
M.A.

P.S: Mais abaixo no blog, vocês encontrarão um mini-conto do Marcelino Freire que dialoga de forma interessante com o vídeo de 3a. feira. Chama-se "Muribeca".

Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Desemprego no Brasil é o mais alto em 15 meses

FOLHA DE SÃO PAULO

São Paulo, sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Desemprego sobe e é o maior em 15 meses

Indicador do IBGE contraria expectativa para o início do segundo semestre e atinge 10,7% em julho, maior marca desde abril de 2005Pela primeira vez no ano, renda do trabalhador teve queda; para instituto, aumento da demanda por vagas pressionou índicePEDRO SOARESDA SUCURSAL DO RIO Na contramão das expectativas e do seu padrão histórico, a taxa de desemprego começou o segundo semestre em alta: bateu em 10,7% em julho, na maior marca desde abril 2005 (10,8%), segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Outra má notícia foi a queda de 0,7% no rendimento de junho para julho (R$ 1.028,50), na primeira retração desde janeiro deste ano.Com mais gente à procura de trabalho, o contingente de pessoas desocupadas nas seis principais regiões metropolitanas do país atingiu 2,430 milhões, retornando ao patamar de desempregados registrado em julho de 2004 (2,442 milhões).De acordo com Cimar Azeredo Pereira, gerente da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, o mercado de trabalho frustrou as expectativas, a julgar pelo comportamento passado da taxa de desemprego, que sempre recua no segundo semestre, quando aumenta a oferta de postos de trabalho."O mercado de trabalho está menos favorável do que em junho. Esperávamos neste ano que a desocupação fosse ceder a partir de maio. Só que isso não aconteceu. Há uma pressão muito grande de entrada no mercado, e essa demanda não consegue ser atendida pelos postos criados", disse Pereira.De junho para julho, foram abertos 84 mil postos de trabalho (+0,4%). A geração de vagas, porém, foi insuficiente para cobrir o aumento de 174 mil pessoas na População Economicamente Ativa (inclui quem está empregado ou em busca de trabalho). Neste ano, o desemprego não cedeu na comparação mensal nenhuma vez. De janeiro a julho, a taxa média de desocupação ficou em 10,2%, mesma marca dos sete primeiros meses de 2005.Uma das hipóteses para a maior busca por emprego, segundo ele, é o calendário eleitoral, que aquece a procura por trabalho. Em tese, não há tanto emprego neste pleito por causa das regras mais restritivas à campanha.Já Marcelo de Ávila, economista do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), diz acreditar que a recuperação do rendimento nos últimos meses acabou atraindo mais pessoas para o mercado de trabalho, que antes relutavam em procurar um emprego."O mercado de trabalho está inchando muito rápido e mais cedo do que em outros anos. A perspectiva de se empregar com uma renda mais alta pode estar trazendo pessoas da inatividade", afirmou.Para Fábio Romão, da LCA, os trabalhadores estão "vislumbrando uma possibilidade maior de se empregar" agora, o que inflou o mercado de trabalho e pressionou a taxa de desemprego. O economista também acredita no efeito das eleições -a hipótese, porém, é menos provável, afirma.Uma outra explicação, diz Pereira, é a redução, ainda que pontual, do rendimento, de junho para julho. Tal fenômeno, segundo ele, pode ter levado mais pessoas de uma mesma família a procurar trabalho com o objetivo de complementar o orçamento familiar.Na avaliação de Ávila, do Ipea, não há no cenário macroeconômico justificativa para o fraco desempenho do mercado de trabalho, já que as políticas fiscal e monetária são "expansionistas" -ou seja, gasto em alta e juros em baixa.

Domingo, Agosto 20, 2006


A morte é um negócio sério (conto de José Rezende Jr.)

- Alô. Sr. Lupércio Conceição?- Sim. Quem fala?- Bom dia, aqui é Gomide, da Death and Company.- Défi o quê?- Death and Company. Ou Morte & Cia., caso o senhor não domine o idioma. - Morte & Cia? É uma funerária? - Não, não, por favor! Estamos implantando em Brasília um novo conceito de morte. Bem... sim e não: atuamos em alguns segmentos comuns aos das funerárias ortodoxas. Mas somos muito mais que isso. - Olha, este negócio de morte, funerária... é um assunto que realmente não me interessa. - Sr. Lupércio: é um assunto que realmente lhe interessa.- Como assim?!- O senhor não descobriu um carocinho...? não andou fazendo uns exames...?- Como você sabe?! Os resultados nem ficaram prontos!- Pois vamos lhe dizer em primeira mão: o senhor tem quatro meses de vida. Talvez três.- Como? Quem? O quê?...- Acalme-se, sr. Lupércio. É muito simples: nossos hackers acessaram seus exames, que foram submetidos ao nosso corpo clínico e...- Mas, mas... Eu quero uma...- Segunda opinião? Consultamos um especialista, terceirizado, e ele duvidou que o senhor ainda estivesse vivo. É melhor ficar com o nosso diagnóstico.- Isso é um absurdo! Ah, é trote! É você, Palhares, seu sacana?- Não brincamos com coisa séria, sr. Lupércio. Queremos tratar com exclusividade de todos os assuntos referentes à sua morte, para que o senhor não leve nenhum estresse para o além. E parcelamos em até três vezes: acima desse limite torna-se, para nós, um empreendimento de alto risco, entende?- Isto é um pesadelo ou...?- Estamos enviando por e-mail um detalhamento de nossos serviços, e um arquivo anexado, com fotos de nossas modelos.- Modelos?!- Modelos e atrizes, o senhor sabe. Lindas! E ficarão desidratadas de tanto chorar no seu velório. Neocarpideiras. Já imaginou a cara de inveja dos amigos? Heim? Heim?- Francamente, eu...- Podemos, inclusive, negociar os direitos de transmissão do enterro e, principalmente, de seus últimos momentos de vida. Há vários canais de tevê a cabo e sites na Web dispostos a pagar uma boa quantia ao senhor.- Mas... Mas... E o que é que eu vou fazer com dinheiro depois de morto?!- Nosso sistema informa que o senhor crê em reencarnação.- S-s-sim, mas...- Desenvolvemos um software capaz de rastrear seu espírito até que ele venha a reencarnar. O dinheiro será, então, depositado na conta desse novo corpo, para o senhor começar uma outra vida bem mais confortável, que tal?- ...- Alô! Sr. Lupércio? Alô!- ...- Alô! O senhor está bem? Fale comigo, sr. Lupércio!- ...- Alô! Alô! Sr. Lup... Ihhh, chefe, acho que nós o perdemos.

Fonte: http://www.joserezendejr.jor.br/

Muribeca (Conto de Marcelino Freire)


Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão. É a vida da gente o lixão. E por que é que agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho? E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pela rua, roubar pra comer?E o que eu vou cozinhar agora? Onde vou procurar tomate, alho, cebola? Com que dinheiro vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa? Fale, fale. Explique o que é que a gente vai fazer da vida? O que a gente vai fazer da vida? Não pense que é fácil. Nem remédio pra dor de cabeça eu tenho. Como vou me curar quando me der uma dor no estômago, uma coceira, uma caganeira? Vá, me fale, me diga, me aconselhe. Onde vou encontrar tanto remédio bom? E esparadrapo e band-aid e seringa? O povo do governo devia pensar três vezes antes de fazer isso com chefe de família. Vai ver que eles tão de olho nessa merda aqui. Nesse terreno. Vai ver que eles perderam alguma coisa. É. Se perderam, a gente acha. A gente cata. A gente encontra. Até bilhete de loteria, lembro, teve gente que achou. Vai ver que é isso, coisa da Caixa Econômica. Vai ver que é isso, descobriram que lixo dá lucro, que pode dar sorte, que é luxo, que lixo tem valor. Por exemplo, onde a gente vai morar, é? Onde a gente vai morar? Aqueles barracos, tudo ali em volta do lixão, quem é que vai levantar? Você, o governador? Não. Esse negócio de prometer casa que a gente não pode pagar é balela, é conversa pra boi morto. Eles jogam a gente é num esgoto. Pr'onde vão os coitados desses urubus? A cachorra, o cachorro? Isso tudo aqui é uma festa. Os meninos, as meninas naquele alvoroço, pulando em cima de arroz, feijão. Ajudando a escolher. A gente já conhece o que é bom de longe, só pela cara do caminhão. Tem uns que vêm direto de supermercado, açougue. Que dia na vida a gente vai conseguir carne tão barato? Bisteca, filé, chã-de-dentro - o moço tá servido? A moça?Os motoristas já conhecem a gente. Têm uns que até guardam com eles a melhor parte. É coisa muito boa, desperdiçada. Tanto povo que compra o que não gasta - roupa nova, véu, grinalda. Minha filha já vestiu um vestido de noiva, até a aliança a gente encontrou aqui, num corpo. É. Vem parar muito bicho morto. Muito homem, muito criminoso. A gente já tá acostumado. Até o camburão da polícia deixa seu lixo aqui, depositado. Balas, revólver 38. A gente não tem medo, moço. A gente é só ficar calado. Agora, o que deu na cabeça desse povo? A gente nunca deu trabalho. A gente não quer nada deles que não esteja aqui jogado, rasgado, atirado. A gente não quer outra coisa senão esse lixão pra viver. Esse lixão para morrer, ser enterrado. Pra criar os nossos filhos, ensinar o nosso ofício, dar de comer. Pra continuar na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não faltar brinquedo, comida, trabalho. Não, eles nunca vão tirar a gente deste lixão. Tenho fé em Deus, com a ajuda de Deus eles nunca vão tirar a gente deste lixo. Eles dissem que sim, que vão. Mas não acredito. Eles nunca vão conseguir tirar a gente deste paraíso.

"Muribeca" é um dos contos do livro "Angu de Sangue", publicado pela Ateliê Editorial no ano 2000.

Fonte: http://eraodito.blogspot.com

Union Sundown [Ocaso do Sindicato]
(Bob Dylan, 1983 - Infidels)

Well, my shoes, they come from Singapore,
My flashlight's from Taiwan,
My tablecloth's from Malaysia,
My belt buckle's from the Amazon.

You know, this shirt I wear comes from the Philippines
And the car I drive is a Chevrolet,
It was put together down in Argentina
By a guy makin' thirty cents a day.

Well, it's sundown on the union
And what's made in the U.S.A.
Sure was a good idea'
Til greed got in the way.

Well, this silk dress is from Hong Kong
And the pearls are from Japan.
Well, the dog collar's from India
And the flower pot's from Pakistan.

All the furniture, it says "Made in Brazil"
Where a woman, she slaved for sure
Bringin' home thirty cents a day to a family of twelve,
You know, that's a lot of money to her.

Well, it's sundown on the union
And what's made in the U.S.A.
Sure was a good idea
'Til greed got in the way.

Well, you know, lots of people complainin' that there is no work.
I say, "Why you say that for
When nothin' you got is U.S.-made?
"They don't make nothin' here no more,

You know, capitalism is above the law.It say,
"It don't count 'less it sells.
"When it costs too much to build it at home
You just build it cheaper someplace else.

Well, it's sundown on the union
And what's made in the U.S.A.
Sure was a good idea'
Til greed got in the way.

Well, the job that you used to have,
They gave it to somebody down in El Salvador.
The unions are big business, friend,
And they're goin' out like a dinosaur.

They used to grow food in Kansas
Now they want to grow it on the moon and eat it raw.
I can see the day coming when even your home garden
Is gonna be against the law.

Well, it's sundown on the union
And what's made in the U.S.A.
Sure was a good idea
'Til greed got in the way.

Democracy don't rule the world,
You'd better get that in your head.
This world is ruled by violence
But I guess that's better left unsaid.

From Broadway to the Milky Way,
That's a lot of territory indeed
And a man's gonna do what he has to do
When he's got a hungry mouth to feed.

Well, it's sundown on the union
And what's made in the U.S.A.S
ure was a good idea'
Til greed got in the way.

Definições de globalização:

"Na era moderna, o nível de distanciamento tempo-espaço é muito maior do que em qualquer período precedente, e as relações entre formas sociais e eventos locais e distantes se tornam correspondentemente 'alongadas'. A globalização se refere essencialmente a esse processo de alongamento, na medida em que as modalidades de conexão entre diferentes regiões ou contextos sociais se enredaram na superfície da Terra como um todo.
A globalização pode assim ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa."
(...)
"... quem quer que estude as cidades hoje em dia, em qualquer parte do mundo, está ciente de que o que ocorre numa vizinhança local tende a ser influenciado por fatores - tais como dinheiro mundial e mercados de bens - operando a uma distância da vizinhança em questão. O resultado não é necessariamente, ou mesmo usualmente, um conjunto generalizado de mudanças atuando numa direção uniforme, mas consiste em tendências mutuamente opostas. A prosperidade crescente de uma área urbana em Singapura pode ter suas causas relacionadas, via uma complicada rede de laços econômicos globais, ao empobrecimento de uma vizinhança em Pittsburgh cujos produtos locais não são competitivos nos mercados mundiais."
(Giddens,1991:69)


“Com a queda pacífica do Muro de Berlim e a derrocada do império soviético muitos viram irromper o fim da política. Acreditou-se ter chegado a uma época para além de socialismo e capitalismo, utopia e emancipação. De lá para cá a tese do isolamento da política perdeu sua força. Pois a palavra ‘globalização’, que atualmente causa tanto espanto em qualquer declaração política, não aponta agora para o fim da política, mas sim para a exclusão da política do quadro categorial do Estado nacional, e até mesmo do papel esquemático daquilo que se entende por ação ‘política’ ou ‘não-política’; afinal, para onde quer que a retórica da globalização (da economia, dos mercados, da concorrência por postos de trabalho, da produção, de mercados e serviços, das finanças, da informação, do estilo de vida) aponte, em termos de conteúdo, tornam-se evidentes em todos os casos as consequências políticas postas em andamento pela globalização econômica: instituições sócio-industriais, para as quais o quadro político parecia completamente fechado, podem ser ‘quebradas’ e expostas ao ataque político: as premissas do Estado de bem-estar social e do sistema de aposentadoria, da assistência social e da política comunitária, da política de infra-estrutura, o poder organizado dos sindicatos, o sistema de negociação da autonomia salarial (que mantém sua independência em
p. 14 relação às empresas), assim como os gastos públicos, o sistema tributário e a ‘justa cobrança’ do imposto – tudo derrete sob o novo sol desértico da globalização na (suposição da) configurabilidade política.”
(Beck,1999: 13-14)

“Globalismo designa a concepção de que o mercado mundial bane ou substitui, ele mesmo, a ação política; trata-se portanto da ideologia do império do mercado mundial, da ideologia do neoliberalismo. O procedimento é monocausal, restrito ao aspecto econômico, e reduz a pluridimensionalidade da globalização a uma única dimensão – a econômica -, que por sua vez, ainda é pensada de forma linear e deixa todas as outras dimensões – relativas à ecologia, à cultura, à política e à sociedade civil – sob o domínio subordinador do mercado mundial. (...) A essência do globalismo consiste muito mais no fato de que aqui se liquida uma distinção fundamental em relação à primeira modernidade: a distinção entre economia e política. A tarefa primordial da política – que consiste na delimitação e no estabelecimento de condições para os espaços jurídicos, sociais e ecológicos, dos quais a atuação da economia depende para ser socializada e tornar-se legítima – se perde de vista ou é derribada. O globalismo é subordinador, a ponto de exigir que uma estrutura tão complexa quanto a Alemanha – ou seja, o Estado, a sociedade, a cultura, a política externa – seja dirigida como uma empresa. Temos aqui, neste sentido, um imperialismo da economia, no qual as empresas impõem as condições sob as quais ela poderá otimizar suas metas.
(Beck,1999:27-28)

“Globalização é, com toda a certeza, a palavra mais usada – e abusada – e a menos definida dos últimos e dos próximos anos; é também a mais nebulosa e mal compreendida, e a de maior eficácia política. Como mostram os exemplos apresentados, é preciso distinguir (sem pretender uma exatidão ou completude absoluta) entre as diversas dimensões da globalização, a saber, a da comunicação técnica, a ecológica, a econômica, a da organização trabalhista, a cultural e a da sociedade civil etc.”
(Beck,1999:44)

“Vai-se derrubando, passo a passo uma das principais premissas da primeira modernidade, a saber: a idéia de que se vive e se interage nos espaços fechados e mutuamente delimitados dos Estados nacionais e de suas respectivas sociedades nacionais. Globalização significa a experiência cotidiana da ação sem fronteiras nas dimensões da economia, da informação, da ecologia, da técnica, dos conflitos transculturais e da sociedade civil”
(Beck,1999:46)

“A globalização tem sido diversamente concebida como ação à distância (quando os atos dos agentes sociais de um lugar podem ter consequências significativas para ‘terceiros distantes’); como compressão espaço-temporal (numa referência ao modo como a comunicação eletrônica instantânea vem desgastando as limitações da distância e do tempo na organização e na interação sociais); como interdependência acelerada (entendida como a intensificação do entrelaçamento entre economias e sociedades nacionais, de tal modo que os acontecimentos em um país têm um impacto direto em outros); como um mundo em processo de encolhimento (erosão das fronteiras e barreiras geográficas à atividade socioeconômica); e, entre outros conceitos,como integração global, reordenação das relações de poder inter-regionais, consciência da situação global e intensificação da interligação inter-regional “
(...)
“Dito em termos mais simples, a globalização denota a escala crescente, a magnitude progressiva, a aceleração e o aprofundamento do impacto dos fluxos e padrões inter-regionais de interação social. Refere-se a uma mudança ou transformação na escala da organização social que liga comunidades distantes e amplia o alcance das relações de poder nas grandes regiões e continentes do mundo.”
(Held e McGrew, 2001:11;13)

“Este mundo globalizado, visto como fábula, erige como verdade um certo número de fantasias, cuja repetição, entretanto, acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de sua interpretação (...)
A máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes da atualidade é feita de peças que se alimentam mutuamente (...)
[i. aldeia global] “para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas”
[ii. Fala-se no encurtamento das distâncias] “para aqueles que podem realmente viajar” e na noção de espaço e tempo contraídos “como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão”
[iii.] “Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas.”
[iv.] “Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal.”
[v.] “Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado.”
[vi. Fala-se muito em morte do Estado x] “seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interesses internacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida torna mais difícil.”
[vii. Ao invés do proclamado fim da ideologia, temos a ideologização maciça,] “segundo a qual a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações”
(SANTOS,1995:18-19)

“A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista.”
(SANTOS,1995:18-19)

“a violência estrutural resulta da presença e das manifestações conjuntas, nessa era de globalização, do dinheiro em estado puro, da competitividade em estado puro e da potência em estado puro, cuja associação conduz à emergência de novos totalitarismos e permite pensar que vivemos numa época de globaritarismo muito mais do que de globalização.”

“A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista.”
(SANTOS,1995:23)

“Este mundo globalizado, visto como fábula, erige como verdade um certo número de fantasias, cuja repetição, entretanto, acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de sua interpretação (...)
A máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes da atualidade é feita de peças que se alimentam mutuamente (...)
[i. aldeia global] “para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas”
[ii. Fala-se no encurtamento das distâncias] “para aqueles que podem realmente viajar” e na noção de espaço e tempo contraídos “como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão”
[iii.] “Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas.”
[iv.] “Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal.”
[v.] “Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado.”
[vi. Fala-se muito em morte do Estado x] “seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interesses internacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida torna mais difícil.”
[vii. Ao invés do proclamado fim da ideologia, temos a ideologização maciça,] “segundo a qual a realização do mundo atual exige como condição essencial o exercício de fabulações”
(SANTOS,1995:18-19)

[i. Aldeia global] “ao contrário do que se dá nas verdadeiras aldeias, é frequentemente mais fácil comunicar com quem está longe do que com o vizinho. Quando esta comunicação se faz, na realidade, ela se dá com a intermediação de objetos. A informação sobre o que está acontece não vem da interação entre as pessoas, mas do que é veiculado pela mídia, uma interpretação interessada, senão interesseira, dos fatos.”
[ii. Espaço e tempo contraídos graças aos prodígios da velocidade] “Só que a velocidade apenas está ao alcance de um número limitado de pessoas, de tal forma que, segundo as possibilidades de cada um, as distâncias têm significações e efeitos diversos e o uso do mesmo relógio não permite igual economia de tempo.”
[iii. Mercado global regulador que homogeinizaria coisas, relações, dinheiros e gostos: “O fato é que apenas três praças, Nova Iorque, Londres e Tóquio, concentram mais da metade de todas as transações e ações; as empresas transnacionais são responsáveis pela maior parte do comércio dito mundial; os 47 países menos avançados representam juntos apenas 0,3% do mercado mundial, em lugar dos 2,3% em 1960” [i.e. em 40 anos diminuiu 8 vezes]


“A globalização mata a solidariedade, devolve o homem à condição primitiva do cada um por si e, como se voltássemos a ser animais da selva, reduz as noções de moralidade pública e particular a um quase nada.”
(SANTOS,1995:65)

A globalização e suas consequências /// Prof. Marcos Alvito - "Realidade"
AS CONSEQUÊNCIAS (HUMANAS) DA GLOBALIZAÇÃO (BAUMAN,1999)
I - OS PROPRIETÁRIOS AUSENTES E O FIM DA RESPONSABILIDADE
(BAUMAN,1991:15-16) "é bem provável que o último quarto desse século passe à história como o da Grande Guerra de Independência em relação ao Espaço. O que aconteceu no curso dessa guerra foi um consistente e inexorável deslocamento dos centros de decisões, junto com os cálculos que baseiam as decisões tomadas por esses centros - livres de restrições territoriais - as restrições da localidade."
(...) "Em princípio não há nada determinado em termos de espaço na dispersão dos acionistas. Eles são o único fator autenticamente livre da determinação espacial. E é a eles e apenas a eles que 'pertence' a companhia. Cabe a eles portanto mover a companhia para onde quer que percebam ou prevejam uma chance de dividendos mais elevados, deixando a todos os demais - presos como são à localidade - a tarefa de lamber as feridas, de consertar o dano e se livrar do lixo. A companhia é livre para se mudar, mas as consequências da mudança estão fadadas a permanecer. Quem for livre para fugir da localidade é livre para escapar das consequências. Esses são os espólios mais importantes da vitoriosa guerra espacial."
II - MOBILIDADE E ESTRATIFICAÇÃO: CARACTERÍSTICAS DA NOVA ELITE PLANETÁRIA
(BAUMAN:16) "No mundo do pós-guerra espacial, a mobilidade espacial tornou-se o fator de estratificação mais poderoso e mais cobiçado, a matéria de que são feitas e refeitas diariamente as novas hierarquias sociais, políticas, econômicas e culturais em escala cada vez mais mundial."
"A mobilidade adquirida por 'pessoas que investem' - aquelas com capital, com o dinheiro necessário para investir - significa uma nova desconexão do poder face a obrigações, com efeito uma desconexão sem precedentes na sua radical incondicionalidade: obrigações com os empregados, mas também com os jovens e fracos, com as gerações futuras e com a auto-reprodução das condições gerais de vida; em suma, liberdade face ao dever de contribuir para a vida cotidiana e a preservação da comunidade. Surge uma nova assimetria entre a natureza extra-territorial do poder e a contínua territorialidade da 'vida como um todo' - assimetria que o poder agora desarraigado, capaz de se mudar de repente ou sem aviso, é livre para explorar e abandonar às consequências dessa exploração. Livrar-se da responsabilidade pelas consequências é o ganho mais cobiçado e ansiado que a nova mobilidade propicia ao capital sem amarras
locais, que flutua livremente. Os custos de se arcar com as consequências não precisam agora ser contabilizados no cálculo da 'eficácia' do investimento."
III - O "FIM DA GEOGRAFIA" E O ESVAZIAMENTO DA COMUNIDADE
(BAUMAN,1999:16) Paul Virilio nega o "fim da história" mas afirma o "fim da geografia", pois "As distâncias já não importam, ao passo que a noção de uma fronteira geográfica é cada vez mais difícil de sustentar no 'mundo real'. Parece claro de repente que as divisões dos continentes e do globo como um todo foram função das distâncias, outrora impositivamente reais devido aos transportes primitivos e às dificuldades de viagem."
As elites sempre tenderam ao cosmopolitismo, desprezando (p.19)as "fronteiras que confinavam as classes inferiores", agora, entretanto, a situação chegou a um extremo: "Bill Clinton, o porta-voz da mais poderosa elite do mundo atual, pôde declarar recentemente que pela primeira vez não há diferença entre a política doméstica e a política externa. (...) Com o tempo de comunicação implodindo e encolhendo para a insignificância do instante, o espaço e os delimitadores do espaço deixam de importar, pelo menos para aqueles cujas ações podem se mover na velocidade da mensagem eletrônica."
(p.22) Como agora a comunicação no interior das comunidades, marcada por sua quase instantaneidade e pelo contato pessoal, não leva mais vantagem sobre a comunicação entre comunidades, a comunidade torna-se frágil e de curta duração.
(p.23) Presumivelmente, o mais seminal dos últimos desenvolvimentos é a redução das diferenças entre os custos de transmissão de informação em escala local e global (onde quer que se envie uma mensagem pela Internet, paga-se a tarifa de uma 'chamada local', circunstância tão importante cultural como economicamente); isso, por sua vez, significa que a informação que eventualmente chega e pede atenção, acesso e permanência (por mais breve que seja) na memória tende a provir dos locais mais variados e mutuamente autônomos, assim provavelmente devendo passar mensagens mutuamente incompatíveis ou canceladoras - em aguda contradição com as mensagens que fluem dentro de comunidades desprovidas de hardware e software e que se apóiam exclusivamente no wetware; isto é, com as mensagens que tendiam a reiterar-se e reforçar-se umas às outras e ajudar o processo de memorização (seletiva)."
III - O 3º ESPAÇO: O ESPAÇO CIBERNÉTICO DA REDE MUNDIAL DE COMPUTADORES
"Elementos desse espaço, de acordo com Paul Virilio, são 'desprovidos de dimensões espaciais, mas inscritos na temporalidade singular de uma difusão instantânea. Doravante as pessoas não podem ser sepa-radas por obstáculos físicos ou distâncias temporais. Com a interface dos terminais de computadores e monitores de vídeo, as distinções entre aqui e lá não significam mais nada.'
O autor, entretanto, alerta que não é bem assim:
"A 'interface dos terminais de computadores' teve impacto variado nas situações angustiosas de diferentes tipos de pessoas. E algumas - na verdade, um bocado delas - ainda podem, como antes, ser 'separadas por obstáculos físicos e distâncias temporais', separação que agora é mais impiedosa e tem efeitos psicológicos mais profundos do que nunca."
IV - NOVA VELOCIDADE, NOVA POLARIZAÇÃO
"Trocando em miúdos: em vez de homogeneizar a condição humana, a anulação das distâncias temporais/espaciais tende a polarizá-la [em itálico no original]. Ela emancipa certos seres humanos das restrições territoriais e torna extraterritoriais certos significados geradores de comunidade - ao mesmo tempo em que desnuda o território, no qual outras pessoas continuam sendo confinadas, do seu significado e da sua capacidade de doar identidade. Para algumas pessoas ela augura uma liberdade sem precedentes face aos obstáculos físicos e uma capacidade inaudita de se mover e agir à distância. Para outras, pressagia a impossibilidade de domesticar e se apropriar da localidade da qual têm pouca chance de se libertar para mudar-se para outro lugar. Com 'as distâncias não significando mais nada', as localidades, separadas por distâncias, também perdem seu significado. Isso, no entanto, augura para alguns a liberdade face à criação de significado, mas para outros pressagia a falta de significado. Alguns podem agora mover-se para fora da localidade - qualquer localidade - quando quiserem. Outros observam, impotentes, a única localidade que habitam movendo-se sob os seus pés."
V - A NOVA ELITE E A EXTRATERRITORIALIDADE GARANTIDA À FORÇA
"a libertação em relação ao 'físico', uma nova imponderabilidade do poder. As elites viajam no espaço e viajam mais rápido do que nunca - mas a difusão e a densidade da rede de poder que elas tecem não dependem dessa viagem. Graças à nova 'incorporeidade' do poder na sua forma sobretudo financeira, os detentores do poder tornam-se realmente extraterritoriais, ainda que corporeamente estejam 'no lugar'.
(...) "suas casas e escritórios supervigiados, eles próprios extraterritoriais, livres da intromissão de vizinhos importunos, isolados do que quer que se possa chamar de uma comunidade local, inacessíveis a quem quer que esteja (ao contrário deles) a ela confinado."
Os poderosos, agora, só precisam:
"isolar-se da localidade" (...) "uma condição de 'não vizinhança', de imunidade face a interferências locais, um isolamento garantido, invulnerável, traduzido como 'segurança' das pessoas, de seus lares e playgrounds. A desterritorialização do poder anda de mãos dadas, portanto, com a estruturação cada vez mais estrita do território."
VI - Os "espaços proibidos" e a "guerra espacial"
Steven Flusty em "Construindo a paranóia" fala da construção de "espaços proibidos" nas áreas metropolitanas, cumprindo a função interna que antes os fossos e torreões dos castelos medievais cumpriam diante das ameaças externas. "Esses e outros 'espaços proibidos' não servem a outro propósito senão transformar a extraterritorialidade da nova elite supralocal no isolamento corpóreo, material, em relação à localidade. Elas também dão um toque final na desintegração das formas localmente baseadas de comunhão, de vida comunitária. A extraterritorialidade das elites é garantida da forma mais material - o fato de serem fisicamente inacessíveis a qualquer um que não disponha de uma senha de entrada."
"As elites escolheram o isolamento e pagam por ele prodigamente e de boa vontade. O resto da população se vê afastado e forçado a pagar o pesado preço cultural, psicológico e político do seu novo isolamento."
"O território urbano torna-se o campo de batalha de uma contínua guerra espacial, que às vezes irrompe no espetáculo público de motins internos, escaramuças rituais com a polícia, ocasionais tropelias de torcidas de futebol, mas travadas diariamente logo abaixo da superfície da versão oficial pública (publicada) da ordem urbana rotineira."
A resposta dos desprezados: também tentar jogar o jogo de demarcar território
"Os habitantes desprezados e despojados de poder nas áreas pressionadas e implacavelmente usurpadas respondem com ações agressivas próprias; tentam instalar nas fronteiras de seus guetos seus próprios avisos de 'não ultrapasse'. Seguindo o eterno costume dos bricoleurs, usam para isso qualquer material que lhes caia em mãos - 'rituais, roupas estranhas, atitudes bizarras, ruptura de regras, quebrando garrafas, janelas ou cabeças, lançando retóricos desafios à lei'. Eficientes ou não, essas tentativas têm a vantagem da não-autorização e tendem a ser convenientemente classificadas nos registros oficiais como questões que envolvem a preservação da lei e da ordem, em vez do que são de fato: tentativas de tornar audíveis e legíveis suas reivindicações territoriais e, portanto, apenas seguir as novas regras do jogo territorial que todo mundo está jogando com prazer."
Para os desprezados a alternativa está entre aceitar a derrota com humilhação e reagir com dignidade (embora também venham a ser derrotados); de qualquer forma a vitória será do seguinte:
"a nova fragmentação do espaço da cidade,
o encolhimento e desaparecimento do espaço público,
a desintegração da comunidade urbana,
a separação e a segregação - e,
acima de tudo,
a extraterritorialidade da nova elite e a territorialidade forçada do resto."
VII - O FIM DAS ÁGORAS (ESPAÇOS PÚBLICOS OU PRIVADOS DE DISCUSSÃO DAS NORMAS) E OS VEREDITOS INQUESTIONÁVEIS
"um território despojado de espaço público dá pouca chance para que as normas sejam debatidas, para que os valores sejam confrontados e negociados. Os vereditos de certo e errado, belo e feio, adequado e inadequado, útil e inútil só podem ser decretados de cima, de regiões que jamais deverão ser penetradas senão por um olhar extremamente inquisitivo; os vereditos são inquestionáveis desde que nenhum questionamento significativo possa ser feito aos juízes e desde que os juízes não deixem sequer um endereço eletrônico, um e-mail - e ninguém saiba com certeza onde residem. Não há espaço para os 'líderes de opinião locais'; não há espaço para a 'opinião local' enquanto tal."

Bibliografia recomendada:
BAUMAN,Zygmunt
[1999] Globalização: as consequências econômicas.Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor.Capítulo 1: "Tempo e Classe", pp.13-33.
GIDDENS,Anthony
[1991] As consequências da modernidade. S.Paulo:Unesp.2.ed.
SANTOS,Milton
[2000] Por uma outra globalização. Rio de Janeiro:Record.
SENNET,Richard
[1999] A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro:Record.

Modernidade radicalizada e globalização - Prof. Marcos Alvito - "Realidade"

I - PÓS-MODERNIDADE OU MODERNIDADE RADICALIZADA ?
- No senso comum, PM liga-se (GIDDENS,1991:52) a "nítida disparidade do passado"; à idéia de que "nada pode ser conhecido com certeza"; "a 'história' é destituída de teologia"; "nenhuma noção de progresso", "nova agenda social e política": ecologia e novos movimentos sociais.
- GIDDENS(1991:11) propõe a seguinte definição de modernidade:
" 'modernidade' refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência."

II - AS PRINCIPAIS RUPTURAS TRAZIDAS PELA MODERNIDADE:
A - ritmo da mudança (dinamismo)
B - escopo da mudança (diferentes estruturas de vida)
C - natureza intrínseca das instituições modernas
A - Fontes do dinamismo da modernidade:
- "separação tempo - espaço"
- desenvolvimento de mecanismos de desencaixe (criação de fichas simbólicas e desenvolvimento de sistemas peritos)
- apropriação reflexiva do conhecimento
Definições importantes:
- Desencaixe (p.29): "'deslocamento' das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço"
- Fichas simbólicas (p.30): "meios de intercâmbio que podem ser 'circulados' sem ter em vista as características específicas dos indivíduos ou grupos que lidam com eles em qualquer conjuntura particular"
- Sistemas peritos (p.35): "sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje; isto envolve a "fé" nestes tipos específicos de conhecimento, mais do que em pessoas "
- Reflexividade (p.45): "as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias 'práticas', alterando assim constitutivamente seu caráter."

III - A DISTINÇÃO ENTRE "LUGAR" & "LOCAL" " (GIDDENS:26-27)
" 'Lugar' é melhor conceitualizado por meio da idéia de localidade, que se refere ao cenário físico da atividade social como situado geograficamente. Nas sociedades pré-modernas, espaço e tempo coincidem amplamente, na medida em que as dimensões espaciais da vida social são, para a maioria da população, e para quase todos os efeitos, dominada pela 'presença' - por atividades localizadas. O advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre outros 'ausentes', localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente o que está presente na cena; a 'forma visível' do local oculta as relações distantes que determinam a sua própria natureza."

IV - DEFINIÇÃO DE GLOBALIZAÇÃO (GIDDENS,1991:69):
"Na era moderna, o nível de distanciamento tempo-espaço é muito maior do que em qualquer período precedente, e as relações entre formas sociais e eventos locais e distantes se tornam correspondentemente 'alongadas'. A globalização se refere essencialmente a esse processo de alongamento, na medida em que as modalidades de conexão entre diferentes regiões ou contextos sociais se enredaram na superfície da Terra como um todo.
A globalização pode assim ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa."
(...)
"... quem quer que estude as cidades hoje em dia, em qualquer parte do mundo, está ciente de que o que ocorre numa vizinhança local tende a ser influenciado por fatores - tais como dinheiro mundial e mercados de bens - operando a uma distância da vizinhança em questão. O resultado não é necessariamente, ou mesmo usualmente, um conjunto generalizado de mudanças atuando numa direção uniforme, mas consiste em tendências mutuamente opostas. A prosperidade crescente de uma área urbana em Singapura pode ter suas causas relacionadas, via uma complicada rede de laços econômicos globais, ao empobrecimento de uma vizinhança em Pittsburgh cujos produtos locais não são competitivos nos mercados mundiais."

Fonte: GIDDENS, A. (1991). As consequências da modernidade. São Paulo, Editora da UNESP.2.ed.