Domingo, Agosto 20, 2006

A globalização e suas consequências /// Prof. Marcos Alvito - "Realidade"
AS CONSEQUÊNCIAS (HUMANAS) DA GLOBALIZAÇÃO (BAUMAN,1999)
I - OS PROPRIETÁRIOS AUSENTES E O FIM DA RESPONSABILIDADE
(BAUMAN,1991:15-16) "é bem provável que o último quarto desse século passe à história como o da Grande Guerra de Independência em relação ao Espaço. O que aconteceu no curso dessa guerra foi um consistente e inexorável deslocamento dos centros de decisões, junto com os cálculos que baseiam as decisões tomadas por esses centros - livres de restrições territoriais - as restrições da localidade."
(...) "Em princípio não há nada determinado em termos de espaço na dispersão dos acionistas. Eles são o único fator autenticamente livre da determinação espacial. E é a eles e apenas a eles que 'pertence' a companhia. Cabe a eles portanto mover a companhia para onde quer que percebam ou prevejam uma chance de dividendos mais elevados, deixando a todos os demais - presos como são à localidade - a tarefa de lamber as feridas, de consertar o dano e se livrar do lixo. A companhia é livre para se mudar, mas as consequências da mudança estão fadadas a permanecer. Quem for livre para fugir da localidade é livre para escapar das consequências. Esses são os espólios mais importantes da vitoriosa guerra espacial."
II - MOBILIDADE E ESTRATIFICAÇÃO: CARACTERÍSTICAS DA NOVA ELITE PLANETÁRIA
(BAUMAN:16) "No mundo do pós-guerra espacial, a mobilidade espacial tornou-se o fator de estratificação mais poderoso e mais cobiçado, a matéria de que são feitas e refeitas diariamente as novas hierarquias sociais, políticas, econômicas e culturais em escala cada vez mais mundial."
"A mobilidade adquirida por 'pessoas que investem' - aquelas com capital, com o dinheiro necessário para investir - significa uma nova desconexão do poder face a obrigações, com efeito uma desconexão sem precedentes na sua radical incondicionalidade: obrigações com os empregados, mas também com os jovens e fracos, com as gerações futuras e com a auto-reprodução das condições gerais de vida; em suma, liberdade face ao dever de contribuir para a vida cotidiana e a preservação da comunidade. Surge uma nova assimetria entre a natureza extra-territorial do poder e a contínua territorialidade da 'vida como um todo' - assimetria que o poder agora desarraigado, capaz de se mudar de repente ou sem aviso, é livre para explorar e abandonar às consequências dessa exploração. Livrar-se da responsabilidade pelas consequências é o ganho mais cobiçado e ansiado que a nova mobilidade propicia ao capital sem amarras
locais, que flutua livremente. Os custos de se arcar com as consequências não precisam agora ser contabilizados no cálculo da 'eficácia' do investimento."
III - O "FIM DA GEOGRAFIA" E O ESVAZIAMENTO DA COMUNIDADE
(BAUMAN,1999:16) Paul Virilio nega o "fim da história" mas afirma o "fim da geografia", pois "As distâncias já não importam, ao passo que a noção de uma fronteira geográfica é cada vez mais difícil de sustentar no 'mundo real'. Parece claro de repente que as divisões dos continentes e do globo como um todo foram função das distâncias, outrora impositivamente reais devido aos transportes primitivos e às dificuldades de viagem."
As elites sempre tenderam ao cosmopolitismo, desprezando (p.19)as "fronteiras que confinavam as classes inferiores", agora, entretanto, a situação chegou a um extremo: "Bill Clinton, o porta-voz da mais poderosa elite do mundo atual, pôde declarar recentemente que pela primeira vez não há diferença entre a política doméstica e a política externa. (...) Com o tempo de comunicação implodindo e encolhendo para a insignificância do instante, o espaço e os delimitadores do espaço deixam de importar, pelo menos para aqueles cujas ações podem se mover na velocidade da mensagem eletrônica."
(p.22) Como agora a comunicação no interior das comunidades, marcada por sua quase instantaneidade e pelo contato pessoal, não leva mais vantagem sobre a comunicação entre comunidades, a comunidade torna-se frágil e de curta duração.
(p.23) Presumivelmente, o mais seminal dos últimos desenvolvimentos é a redução das diferenças entre os custos de transmissão de informação em escala local e global (onde quer que se envie uma mensagem pela Internet, paga-se a tarifa de uma 'chamada local', circunstância tão importante cultural como economicamente); isso, por sua vez, significa que a informação que eventualmente chega e pede atenção, acesso e permanência (por mais breve que seja) na memória tende a provir dos locais mais variados e mutuamente autônomos, assim provavelmente devendo passar mensagens mutuamente incompatíveis ou canceladoras - em aguda contradição com as mensagens que fluem dentro de comunidades desprovidas de hardware e software e que se apóiam exclusivamente no wetware; isto é, com as mensagens que tendiam a reiterar-se e reforçar-se umas às outras e ajudar o processo de memorização (seletiva)."
III - O 3º ESPAÇO: O ESPAÇO CIBERNÉTICO DA REDE MUNDIAL DE COMPUTADORES
"Elementos desse espaço, de acordo com Paul Virilio, são 'desprovidos de dimensões espaciais, mas inscritos na temporalidade singular de uma difusão instantânea. Doravante as pessoas não podem ser sepa-radas por obstáculos físicos ou distâncias temporais. Com a interface dos terminais de computadores e monitores de vídeo, as distinções entre aqui e lá não significam mais nada.'
O autor, entretanto, alerta que não é bem assim:
"A 'interface dos terminais de computadores' teve impacto variado nas situações angustiosas de diferentes tipos de pessoas. E algumas - na verdade, um bocado delas - ainda podem, como antes, ser 'separadas por obstáculos físicos e distâncias temporais', separação que agora é mais impiedosa e tem efeitos psicológicos mais profundos do que nunca."
IV - NOVA VELOCIDADE, NOVA POLARIZAÇÃO
"Trocando em miúdos: em vez de homogeneizar a condição humana, a anulação das distâncias temporais/espaciais tende a polarizá-la [em itálico no original]. Ela emancipa certos seres humanos das restrições territoriais e torna extraterritoriais certos significados geradores de comunidade - ao mesmo tempo em que desnuda o território, no qual outras pessoas continuam sendo confinadas, do seu significado e da sua capacidade de doar identidade. Para algumas pessoas ela augura uma liberdade sem precedentes face aos obstáculos físicos e uma capacidade inaudita de se mover e agir à distância. Para outras, pressagia a impossibilidade de domesticar e se apropriar da localidade da qual têm pouca chance de se libertar para mudar-se para outro lugar. Com 'as distâncias não significando mais nada', as localidades, separadas por distâncias, também perdem seu significado. Isso, no entanto, augura para alguns a liberdade face à criação de significado, mas para outros pressagia a falta de significado. Alguns podem agora mover-se para fora da localidade - qualquer localidade - quando quiserem. Outros observam, impotentes, a única localidade que habitam movendo-se sob os seus pés."
V - A NOVA ELITE E A EXTRATERRITORIALIDADE GARANTIDA À FORÇA
"a libertação em relação ao 'físico', uma nova imponderabilidade do poder. As elites viajam no espaço e viajam mais rápido do que nunca - mas a difusão e a densidade da rede de poder que elas tecem não dependem dessa viagem. Graças à nova 'incorporeidade' do poder na sua forma sobretudo financeira, os detentores do poder tornam-se realmente extraterritoriais, ainda que corporeamente estejam 'no lugar'.
(...) "suas casas e escritórios supervigiados, eles próprios extraterritoriais, livres da intromissão de vizinhos importunos, isolados do que quer que se possa chamar de uma comunidade local, inacessíveis a quem quer que esteja (ao contrário deles) a ela confinado."
Os poderosos, agora, só precisam:
"isolar-se da localidade" (...) "uma condição de 'não vizinhança', de imunidade face a interferências locais, um isolamento garantido, invulnerável, traduzido como 'segurança' das pessoas, de seus lares e playgrounds. A desterritorialização do poder anda de mãos dadas, portanto, com a estruturação cada vez mais estrita do território."
VI - Os "espaços proibidos" e a "guerra espacial"
Steven Flusty em "Construindo a paranóia" fala da construção de "espaços proibidos" nas áreas metropolitanas, cumprindo a função interna que antes os fossos e torreões dos castelos medievais cumpriam diante das ameaças externas. "Esses e outros 'espaços proibidos' não servem a outro propósito senão transformar a extraterritorialidade da nova elite supralocal no isolamento corpóreo, material, em relação à localidade. Elas também dão um toque final na desintegração das formas localmente baseadas de comunhão, de vida comunitária. A extraterritorialidade das elites é garantida da forma mais material - o fato de serem fisicamente inacessíveis a qualquer um que não disponha de uma senha de entrada."
"As elites escolheram o isolamento e pagam por ele prodigamente e de boa vontade. O resto da população se vê afastado e forçado a pagar o pesado preço cultural, psicológico e político do seu novo isolamento."
"O território urbano torna-se o campo de batalha de uma contínua guerra espacial, que às vezes irrompe no espetáculo público de motins internos, escaramuças rituais com a polícia, ocasionais tropelias de torcidas de futebol, mas travadas diariamente logo abaixo da superfície da versão oficial pública (publicada) da ordem urbana rotineira."
A resposta dos desprezados: também tentar jogar o jogo de demarcar território
"Os habitantes desprezados e despojados de poder nas áreas pressionadas e implacavelmente usurpadas respondem com ações agressivas próprias; tentam instalar nas fronteiras de seus guetos seus próprios avisos de 'não ultrapasse'. Seguindo o eterno costume dos bricoleurs, usam para isso qualquer material que lhes caia em mãos - 'rituais, roupas estranhas, atitudes bizarras, ruptura de regras, quebrando garrafas, janelas ou cabeças, lançando retóricos desafios à lei'. Eficientes ou não, essas tentativas têm a vantagem da não-autorização e tendem a ser convenientemente classificadas nos registros oficiais como questões que envolvem a preservação da lei e da ordem, em vez do que são de fato: tentativas de tornar audíveis e legíveis suas reivindicações territoriais e, portanto, apenas seguir as novas regras do jogo territorial que todo mundo está jogando com prazer."
Para os desprezados a alternativa está entre aceitar a derrota com humilhação e reagir com dignidade (embora também venham a ser derrotados); de qualquer forma a vitória será do seguinte:
"a nova fragmentação do espaço da cidade,
o encolhimento e desaparecimento do espaço público,
a desintegração da comunidade urbana,
a separação e a segregação - e,
acima de tudo,
a extraterritorialidade da nova elite e a territorialidade forçada do resto."
VII - O FIM DAS ÁGORAS (ESPAÇOS PÚBLICOS OU PRIVADOS DE DISCUSSÃO DAS NORMAS) E OS VEREDITOS INQUESTIONÁVEIS
"um território despojado de espaço público dá pouca chance para que as normas sejam debatidas, para que os valores sejam confrontados e negociados. Os vereditos de certo e errado, belo e feio, adequado e inadequado, útil e inútil só podem ser decretados de cima, de regiões que jamais deverão ser penetradas senão por um olhar extremamente inquisitivo; os vereditos são inquestionáveis desde que nenhum questionamento significativo possa ser feito aos juízes e desde que os juízes não deixem sequer um endereço eletrônico, um e-mail - e ninguém saiba com certeza onde residem. Não há espaço para os 'líderes de opinião locais'; não há espaço para a 'opinião local' enquanto tal."

Bibliografia recomendada:
BAUMAN,Zygmunt
[1999] Globalização: as consequências econômicas.Rio de Janeiro:Jorge Zahar Editor.Capítulo 1: "Tempo e Classe", pp.13-33.
GIDDENS,Anthony
[1991] As consequências da modernidade. S.Paulo:Unesp.2.ed.
SANTOS,Milton
[2000] Por uma outra globalização. Rio de Janeiro:Record.
SENNET,Richard
[1999] A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro:Record.

2 Comments:

At 3:31 PM, Blogger andre@cinemania said...

professor Alvito eu sou andré do curso de cinema primeiro período,queria saber a sua opinião sobre a adoção da televisão digital e qual vai ser seu impacto social já que as regionalidades serão mais difundidas,e se por isso as grandes empresas da mídia serão afetadas.Além disso queria saber se vc concorda com a visão do Milton Santos sobre a aglomeração dos povos em um espaço menor é capaz de promover maior dinamismo na difusão da cultura.

 
At 5:22 AM, Blogger Marcos Alvito said...

Oi, André, vou começar pelo Milton Santos. Concordo com ele sim, a grande cidade, cujas mazelas são continuamente apontadas, é também um espaço fantástico de troca e de comunicação. O Rio, por ter sido capital durante séculos, é um bom exemplo disso: aqui se entrecruzaram portugueses, italianos, espanhóis, nordestinos, mineiros, gaúchos. O samba é fruto dessa troca, muito mais do que meramente derivado da África: o tipo de verso e o uso do violão são portugueses, a evolução do mestre sala e da porta-bandeira vem de uma dança dos salões da elite da época. A cidade é o espaço da festa, além de proporcionar mais oportunidades de trabalho. Aqui, em um mesmo dia, você pode assistir a um filme norueguês no Estação, ouvir um concerto de Chopin na Sala Cecília Meireles e dançar charm na Lapa, indo acabar a noite no forró da Feira de São Cristóvão. Acho, portanto, que o Milton Santos está coberto de razão.
Quanto à tv digital, sei muito pouco, você me parece melhor informado. Do que li, sei que o padrão escolhido era o preferido da Rede Globo e sendo o ministro um ex(?)-funcionário... Mesmo assim, novas tecnologias sempre abrem novas oportunidades (vide a Internet e os blogs, não é mesmo) e caberá aproveitá-las. Talvez as próprias grandes empresas aproveitem esta maior regionalização para alcançar "fatias do mercado" como eles gostam de dizer. É difícil dizer o que vai acontecer.
um abraço,
Alvito

 

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