Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Entrevista Paul SINGER

Oi, pessoal, nosso colega Rafael Cruz enviou-nos uma entrevista com Paul SINGER (Leitura 2):

Entrevista: Paul Singer

Paul Singer é um dos maiores estudiosos da Economia Solidaria no Brasil. Austríaco, de Viena, mora no Brasil desde 1940. É formado em Economia e Administração, doutor em Sociologia, além de outras formações. Possui 23 obras publicadas e atualmente é secretário nacional de Economia Popular Solidária, no Ministério de Trabalho e Emprego do governo brasileiro. Nesta entrevista ao jornal Folha do Amapá, dada em junho 2003, ele conceitua a Economia Solidária e fala de seu avanço no Brasil.
Como o senhor conceitua a economia solidária?
É uma economia formada por empresas onde os trabalhadores são capitalistas e os capitalistas são os trabalhadores. Não há separação entre a propriedade e o trabalho. Todos que trabalham na empresa são donos da empresa por igual. Cada um tem a mesma parte do capital e, portanto, os mesmos direitos de decisão. Pratica-se a autogestão, que é a administração da empresa por todos que trabalham nela democraticamente. Nós não sabemos exatamente onde a economia solidária começou, mas na Europa, com certeza, no fim do século 18, com a primeira revolução industrial. Na Inglaterra ela tomou forma mais nítida a partir do século 19. Houve muitas tentativas, centenas de cooperativas formadas por trabalhadores desempregados, que tinham perdido seu trabalho em função da revolução industrial. Mas a partir da segunda metade do século 19 esse tipo de economia tomou a forma de cooperativas, se difundiu no mundo inteiro, e hoje a Aliança Cooperativa Internacional tem como associados, através das cooperativas que são parte dela, 600 milhões de pessoas no mundo inteiro. Isso é mais ou menos 10% da população mundial.
O senhor vê a economia solidária como uma reação ao capitalismo. O que ela pretende?
No fundo, é criar um outro tipo de economia e sobre ela um outro tipo de sociedade, onde não há ricos e pobres, e não há quem manda e quem obedece. A estrutura capitalista das empresas é extremamente autocrática. Todo poder está na propriedade ou em quem representa a propriedade, e os outros trabalhadores obedecem a ordens. Essa hierarquia é tão rígida hoje quanto foi cem anos atrás. Nada mudou, essencialmente. A proposta da economia solidária é exatamente eliminar essa divisão de classes e, a partir daí, criar uma economia não capitalista, que todos participem em atividades sociais, ou seja, todos são associados por igual.
Existem mais economias solidárias no Brasil do que nos outros países?
Há um surto extremamente forte de economia solidária no Brasil, desde os anos 90, e está se acelerando hoje, inclusive tem ganhado apoio político e social. Em 1999, a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica teve como tema “Por que Desemprego?”, mostrando que o desemprego não é uma coisa inevitável e colocando a economia solidária como uma das mais importantes alternativas ao desemprego. Então eu não tenho dúvida de que hoje o Brasil é palco do maior surto de economia solidária, que também está se expandindo fortemente em alguns outros países da América Latina e aparentemente também na Índia e possivelmente nos países da África. A verdade é que a informação que nós temos é muito precária, tanto em ralação ao nosso país quanto aos outros países.
A economia solidária pode ser considerada uma alavanca para o desenvolvimento local?
Eu acho que certamente no Amapá é, se tomar em consideração que as cooperativas são formadas tanto por castanheiros como por pescadores e outros. A economia solidária é uma forma eficaz de dar força a pequenos produtores, que é a característica da economia extrativista na Amazônia inteira. Através das cooperativas os pequenos extrativistas se unem, e sem que ninguém mande em ninguém eles conseguem industrializar eventualmente seus produtos, agregar mais valor e dar mais competitividade.
O que é ou quem é que fomenta a economia solidária?
Há uma série de entidades hoje especializadas, além da Cáritas, que foi, ao meu ver, a entidade que deu mais impulso, ainda nos anos 80, quando nós vivemos o início desse novo auge da economia solidária no Brasil. Existe a Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas Autogeridas e de Participação Acionária (Anteag). Estas empresas surgem de empresas capitalistas que estão quebrando, já quebraram, e conseguem que essas empresas sejam assumidas por seus trabalhadores sob forma de cooperativas ou outras formas semelhantes, e na maneira da economia solidária reabilitam essas empresas. Hoje existem mais de cem empresas dessa natureza associadas à Anteag. O MST é outra entidade que cria economia solidária nos assentamentos da reforma agrária, a Contag também faz isso, os sindicatos rurais da CUT, a Agência de Desenvolvimento Solidário da CUT, que tem uma atividade forte na criação de cooperativas de crédito, enfim, sem esquecer as incubadoras universitárias de cooperativas populares, que já se fazem presentes em cerca de vinte universidades brasileiras, de Manaus até Pelotas.
É possível fazer um paralelo entre economia solidária e economia sustentável?
Eu acho que existe uma forte afinidade entre esses conceitos, mas eles não são idênticos. A economia sustentável, pelo que eu entendo, refere-se à forma de as pessoas, na atividade econômica, tratarem os recursos naturais e o meio ambiente, uma forma inteligente de preservar os recursos naturais e, sobretudo, a qualidade do ambiente, o que é fundamental para que o desenvolvimento não cesse amanhã por destruição das suas bases físicas e da idéia de sustentabilidade. A economia solidária é uma proposta em relação a como se organiza socialmente a atividade produtiva, uma forma igualitária e democrática. As duas coisas vão muito bem juntas, aqui no Amapá, mas eu acho que não vale a pena confundi-las. São propostas afins, porém não idênticas.
21/09/2003
Retirado de: www.comerciosolidariobrasil.com.br