Quarta-feira, Novembro 22, 2006

A história de Joana - Texto de Rafael Cruz

A maior tristeza do mundo

Apesar do título remeter o filme de Guel Arraes, esse texto nada tem a ver com ele. Na verdade esse texto trata de um triste acontecimento que eu presenciei no trajeto Centro do Rio – Niterói. Ao esperar a minha vez para entrar no ônibus que seguiria para Niterói, vejo uma mulher negra, muito magra, com deficiência nas duas pernas e com uma touca ninja na cabeça sair pela entrada deste ônibus, pedindo desculpas pelo incômodo e outras coisas que não prestei atenção, pois ando sempre muito desligado. O que ocorreu foi que Joana havia pedido carona ao motorista, pois não tinha dinheiro para ir a Niterói. O motorista havia negado veementemente e mandado que ela descesse do ônibus. Quando eu estava subindo no ônibus, ouvi uma passageira, que estava logo a minha frente, discutir calmamente com o motorista, dizendo que iria pagar a passagem dela. Nisso ela chama essa mulher de touca (que eu irei dar o nome simbólico de Joana) para entrar no ônibus novamente. Sob protestos do motorista, Joana entra, emocionada e muito agradecida pela generosidade dessa passageira. Procura um lugar para sentar-se e encontra um lugar vago bem perto do trocador, na parte dianteira do ônibus. Ela volta-se para a passageira que lhe ajudou, agradece novamente e em seguida, olha para todos os passageiros do ônibus e inicia um discurso que eu jamais pensaria em ouvir, tanto pelo seu conteúdo quanto pela forma como ela o proferiu. Não me recordo exatamente das palavras dela, porém lembro das passagens mais importantes (leia-se marcantes para mim). De uma forma muito emotiva, ela disse que precisava pedir ajuda para conseguir o que comer e sustentar o seu filho, pois todo mundo nega trabalho a ela, julgando-a pela sua aparência (negra e mal vestida), sempre achando que ela é alguma vagabunda que anda com uma faca escondida na calça para atacar e roubar os outros. “Se eu parar de pedir ajuda, morro de fome. Meu filho morre de fome também [...] [...] É pessoal, as pessoas morrem de FOME. Meu filho depende de mim.” Nisso ela levantou sua blusa, mostrou o seio direito e o espremeu, espirrando um pouco de leite. “Estão vendo, sou uma mãe. Não estou mentindo”. Quando Joana ia prosseguir com o seu desabafo, o motorista, já irritado, interveio gritando “Olha só, ou você pára de falar merda e pára de perturbar os passageiros ou eu vou te tirar do ônibus. Como é que é???” Então, eu reparei que ele já havia parado o ônibus, bem no início da ponte Rio-Niterói. Prosseguiu: “Desse jeito eu perco o meu emprego. Vou te tirar do ônibus!” Joana respondeu resignada: “Desculpe amigo. Não queria incomodar. Pode prosseguir com a sua viagem que eu irei ficar em silêncio”. E não falou mais nada desde então. Quando o ônibus saiu da ponte, ela fez sinal. A passageira que pagou a passagem de Joana a chamou, falou alguma coisa em seu ouvido e deu-lhe um dinheiro. Joana, quase chorando, olhou nos olhos dela e a agradeceu do fundo da alma. O motorista parou no ponto e não abriu a porta. Joana, com uma voz embargada de emoções e com muita suavidade pediu: “Amigo, a porta por favor.” Ele abriu a porta e ela desceu, com a dificuldade que tem um pessoa com deficiência em ambas as pernas, e seguiu o seu rumo.

Esse episódio me chocou muito. Não que eu não tivesse conhecimento desses tipos de preconceitos impregnados no brasileiro, pois, graças as excelentes aulas do professor Marcos Alvito, tive a oportunidade de enxergar muitos contrastes sociais da nossa realidade. Mas é muito diferente você tomar conhecimento dessas situações dentro de uma sala de aula, bem longe do problema e presenciá-las ao vivo, no mundo real. Quando disse que jamais imaginava ouvir uma pessoa revelar essas coisas, eu esperava nunca poder comprovar a autenticidade dos textos e dos debates da disciplina Realidade sócio-econômica brasileira, ao qual eu participo como aluno do referido professor.

Enquanto Joana falava, fiquei pensando o que poderia fazer por ela. Observei que ela tinha uma voz maravilhosa, talvez não para ser cantora, mas para trabalhar em produção de filmes e documentários. Falava com muita clareza e senso de pausa, melhor do que muitos professores e outras pessoas que se consideram oradores. Olhava para todos enquanto falava, tentando ver se o que dizia estava sendo absorvido por todos. Então tive a idéia: Joana poderia fazer trabalhos de dublagem, narrando histórias ou como locutora de rádio. A própria Universidade Federal Fluminense (instituição ao qual estudo) poderia acolhê-la. Seria um bom trabalho para ela, mas... como conseguir isso? Não tenho poderes para arranjar emprego para alguém, ainda mais se tratando de uma instituição federal. Meu estado de choque me impediu de tentar uma outra alternativa para Joana. Não sabia o que fazer, e notava que eu não era o único. A reação era unânime. Pelo menos eu tinha um pouco de conhecimento do que estava ocorrendo naquele momento e sabia o que pensar dela e sobre o que ela falou. Talvez muitos ali estivessem do lado do motorista, só esperando que ele desse a ordem de expulsão da Joana para que pudessem ajudar a colocá-la para fora.

Notei que o discurso de Joana não tinha tom apelativo, para que sentíssemos pena dela, ou que estivesse revoltada com a pessoa que a maltratou. Joana não trazia em sua fala um tom agressivo, mas sim sufocado, de desabafo com a situação que lhe apresentava cotidianamente. Estava ali tentando mostrar para as pessoas o que ela passa, tentando abrir os olhos delas para essa não-conformidade social.

Quando Joana foi embora, fiquei pensando: Isso foi apenas um episódio que presenciei. O que acontece em seu dia-a-dia? Será que ela é agredida fisicamente? Quais os outros maus tratos ela é submetida? Com que frequência isso acontece com ela? Creio que diariamente...

Pois é... Penso nela, aí a multiplico por milhares, talvez milhões de outras pessoas que passam pela mesma situação em nosso país. Penso que agora achei algo em que posso ajudá-la. Pretendo publicar essa história em vários locais para que o maior número possível de pessoas enxerguem o quão horrível, nós seres humanos somos.

Rio de Janeiro, 30 de Outubro de 2006

Rafael Cruz

1 Comments:

At 2:59 PM, Blogger Carolina do Amaral said...

Rafael, que coisa!!! A Joana é cinematográfica, como a Estamira, uma pena ter se perdido no mundo. E uma pena maior ainda é você ter conhecido o talento dela através de uma situação tão degradante.
Mas a vida é assim. Fazer o quê? Ajudar com dinheiro, como a senhora? Eu sinceramente gostaria de mudar o motorista, mais do que dar esmolas. Enfim, essa discussão fica para a aula sobre arte.

 

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